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Diplomacia da bola

O Estado de S.Paulo

27 Junho 2014 | 02h 05

A presidente Dilma Rousseff está tentando aproveitar a oportunidade diplomática criada pela realização da Copa do Mundo no Brasil. Entre um jogo e outro, aos quais compareceram diversos chefes de governo estrangeiros no País, Dilma abriu sua agenda para estabelecer contatos importantes - e sinalizar a disposição de reaquecer relações com os Estados Unidos, de se aproximar da Colômbia e de impulsionar o acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia, entre outras iniciativas positivas.

No caso dos Estados Unidos, Dilma recebeu o vice-presidente Joe Biden, no primeiro encontro de alto nível entre representantes dos dois países desde a revelação, no ano passado, de que o serviço de inteligência americano teria espionado empresas e cidadãos brasileiros - entre os quais a própria Dilma. O episódio levou a presidente a cancelar uma visita de Estado a Washington, e, desde então, as relações entre os dois países estão estremecidas.

Dilma ainda espera um pedido de desculpas formal por parte do presidente Barack Obama. Em seu encontro com a presidente, Biden não ofereceu as desculpas, mas se disse "confiante" na rápida normalização das relações, salientando que o convite para que Dilma visite os Estados Unidos continua de pé. A própria presidente, antes do início do Mundial, disse a jornalistas estrangeiros que estava pronta para "seguir adiante" nas relações com os americanos, superando o lamentável episódio da espionagem.

Os gestos são claros na direção de uma distensão - mesmo porque o comércio entre os dois países vai muito bem, independentemente da atmosfera carregada. De janeiro a maio deste ano, em relação a igual período de 2013, as exportações do Brasil para os Estados Unidos cresceram 12,69%, enquanto as vendas para a China tiveram um aumento de 5,69% e as exportações para a Argentina recuaram 19,33%.

No mesmo período, os Estados Unidos ficaram muito próximos de se tornar o maior exportador para o Brasil, com 15,36% do total, ante 16,61% da China. Logo, o desentendimento entre Dilma e Obama soa mais como um ruído passageiro numa relação que apresenta robustez em seus múltiplos pontos de interesse.

Já a aproximação de Dilma com o presidente reeleito da Colômbia, Juan Manuel Santos, ocorre no momento em que a Aliança do Pacífico, bloco econômico integrado pelos colombianos, desponta como a grande novidade econômica da América Latina, um contraponto à apatia do Mercosul.

Amarrado a seus parceiros regionais por compromissos muitas vezes mais ideológicos do que racionais, o Brasil vem perdendo a chance de se associar a países e blocos muito mais dinâmicos, que abririam preciosas oportunidades de negócios justamente no momento em que precisa sacudir sua economia. No encontro de Dilma com Santos, em que o colombiano elogiou a "espetacular" hospitalidade dos brasileiros na Copa, sinalizou-se a intenção de conciliar interesses de ambas as partes.

"A Aliança do Pacífico não é aliança contra ninguém nem concorrência com ninguém", disse Santos. Ele deu a entender, no entanto, que o interesse da Colômbia em "encontrar sinergias" com o Mercosul se limita ao fato de que o bloco inclui o Brasil, maior potência da região.

Do mesmo modo, Dilma aproveitou o encontro com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, para mostrar disposição de fechar o acordo comercial com a União Europeia, cuja conclusão tem sido adiada em razão das exigências argentinas.

Como tem acontecido com frequência nas relações comerciais entre Brasil e Argentina, os "hermanos" vêm ditando o ritmo e os termos das negociações, explorando a hesitação brasileira na hora de fazer prevalecer seu maior peso econômico.

"Há determinação do Brasil e do Mercosul para avançarmos nas negociações com a União Europeia para ampliar e diversificar o intercâmbio comercial", disse Dilma após conversar com Merkel, sinalizando que o Brasil tem todo o interesse de alcançar um acordo com os europeus, a despeito das reservas argentinas.

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