Do nada, uma chance

Um improvável improviso do secretário de Estado americano, John Kerry, pode provocar uma reviravolta nos planos do presidente Barack Obama de ordenar uma expedição punitiva contra o ditador sírio Bashar al-Assad pelo ataque com armas químicas a redutos rebeldes nas cercanias de Damasco em 21 de agosto. Embora a comissão da ONU que investiga a guerra civil em curso no país há dois anos e meio ainda não tenha sido autorizada a apurar no local a autoria da atrocidade, Washington a imputou ao regime, afirmando ter provas cabais da responsabilidade das forças de Assad pela morte de 1.429 pessoas, entre elas 426 crianças, por inalação de gás sarin.

O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2013 | 02h16

O Congresso dos EUA tinha ficado de votar hoje o endosso pedido por Obama para a retaliação. Com mais de 60% dos americanos contrários à ideia, a tendência do Capitólio era dar à Casa Branca um não sem precedentes em situações do gênero, o que debilitaria a autoridade política do seu ocupante. Subitamente, tudo entrou em compasso de espera. Na segunda-feira, em Londres, um repórter perguntara a Kerry se haveria algo capaz de impedir que se consumasse a ação militar, dada como muito provável mesmo sem o apoio do Capitólio e à revelia do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

A resposta foi surpreendente. Em vez de tartamudear alguma evasiva, Kerry se saiu com uma alternativa que, de tão desconcertante, foi rebatida pelos próprios assessores como "retórica": se em cinco dias Assad concordasse em entregar os seus estoques de substâncias venenosas à comunidade internacional, para que fossem desativados, os EUA sustariam a incursão que o secretário qualificara, em outro aparente lapso, de "inacreditavelmente pequena". Numa coincidência que os céticos diriam suspeita, a sugestão do secretário de Estado encontrou em Moscou o chanceler sírio Walid al-Muallem, em conversações com o colega russo Sergey Lavrov - e ambos como que disputaram a primazia de abraçar o que nem sequer poderia ser considerada uma proposta formal.

O fato é que se formou a proverbial bola de neve. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, deu a entender que já tinha pensado nisso. O primeiro-ministro David Cameron, derrotado no Parlamento ao defender a participação da Grã-Bretanha no castigo a Assad, correu a aderir. Por fim, numa entrevista noturna à CNN, originalmente concebida como parte do esforço de persuadir o Congresso de que a única saída era bombardear as posições sírias, Obama disse que, "se pudermos atingir esse objetivo limitado (degradar a capacidade de Assad de usar armas químicas) sem uma ação militar, essa será minha preferência". Se ele fosse menos dado a esconder os seus sentimentos, talvez não resistisse ao impulso de comemorar ao vivo a nova situação.

Os motivos são evidentes. De um lado, o instantâneo apoio internacional às palavras de Kerry - dado o temor de um confronto armado de consequências imprevisíveis - foi uma tábua de salvação para o presidente. Ele optou pela represália militar apenas para salvar a face, depois de ter dito impensadamente que Assad "cruzaria uma linha vermelha" se atacasse a insurgência com armamento proibido. De outro lado, se tudo der certo, Obama poderá se gabar de que a Síria só concordou em se desfazer dos seus arsenais porque ele se pôs a tocar os tambores de guerra. Sem isso, tampouco a Rússia patrocinaria uma ideia que, nas circunstâncias, convém a todos os envolvidos.

Uma ventania de otimismo percorre desde ontem o campo diplomático. Na esteira do presumível êxito da solução lançada à ordem do dia, já se começam a ouvir especulações sobre a eventual abertura de negociações de paz entre o regime de Damasco e a insurgência, a única forma de estancar a sangueira síria - se é que isso é possível. É preciso, porém, ter em mente o muito que pode dar errado no longo processo de transferência de centenas de toneladas de armas letais. Não se deve dar por resolvido o que nem foi iniciado. Por ora, o que há é uma inesperada oportunidade. Já não é pouco.

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