Dom Duarte Leopoldo e Silva, 1º arcebispo de SP

Grande paulista e paulistano de adoção, muito fez pela grandeza desta metrópole

*Dom Odilo P. Scherer, O Estado de S.Paulo

08 Abril 2017 | 03h04

Neste ano se comemora o 150.° ano do nascimento de dom Duarte Leopoldo e Silva. Dom Duarte nasceu em Taubaté, no dia 4 de abril de 1867, e faleceu em São Paulo, em 13 de novembro de 1938, aos 71 anos de idade. Foi o segundo bispo de Curitiba e o 13.º bispo de São Paulo, onde também se tornou o seu primeiro arcebispo.

Na juventude quis ser advogado e chegou a iniciar os estudos na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, mas acabou seguindo para o Rio de Janeiro, onde fez estudos para ser farmacêutico. Sua verdadeira vocação, porém, ainda não seria essa, pois nutria o desejo de ser sacerdote. Por isso procurou o seminário da Diocese de São Paulo, onde cursou os estudos de Filosofia e Teologia. Foi ordenado sacerdote em 30 de outubro de 1892, passando a dedicar-se a intensa atividade religiosa.

Naquela época, logo após a proclamação da República e a separação entre Igreja e Estado no Brasil, a Diocese de São Paulo ainda abrangia todo o Estado paulista, onde hoje existem nada menos que 43 dioceses. O primeiro encargo de padre Duarte foi o cuidado da paróquia de Jaú, no interior do Estado. Em seguida foi nomeado para a nova Paróquia de Santa Cecília, então situada na periferia da cidade de São Paulo, junto à estrada que levava a Campinas. Padre Duarte também ficou responsável por toda a região rural a oeste do centro da cidade e revelou grandes qualidades de pastor e administrador. Entre outras iniciativas, fez edificar e adornar a atual Igreja de Santa Cecília.

Em 1904, com apenas 37 anos de idade e 12 de sacerdócio, foi nomeado bispo de Curitiba pelo papa São Pio X, recebendo a ordenação episcopal em Roma, na capela do Colégio Pio Latino-Americano, pela imposição das mãos do cardeal Rafael Merry Del Val. Um dos consagrantes foi dom Silvério Gomes Pimenta, bispo de Mariana. No dia 2 de outubro de 1904 tomou posse na Diocese de Curitiba, que ainda abrangia inteiramente os Estados do Paraná e de Santa Catarina. Em dois anos realizou visitas pastorais em toda a sua extensa diocese e desempenhou um trabalho pastoral dinâmico.

Com a morte trágica do bispo de São Paulo, dom José de Camargo Barros, perecido num naufrágio enquanto retornava da Europa para o Brasil, dom Duarte Leopoldo e Silva foi nomeado bispo de São Paulo, em 18 de dezembro de 1906. Tomou posse em 14 de abril de 1907 e pôs-se logo a trabalhar intensamente; a cidade de São Paulo já dava mostras de crescimento rápido, com a chegada de muitos imigrantes e o crescimento da economia cafeeira do interior do Estado.

Já em 7 de junho de 1908 promoveu o desmembramento da extensa diocese e a elevação de São Paulo à condição de sede metropolitana. Mediante a bula Diœcesium nimiam amplitudinem (A Excessiva Extensão das Dioceses), o papa São Pio X criou a Província Eclesiástica de São Paulo e nomeou dom Duarte como primeiro arcebispo de São Paulo. Ao mesmo tempo, criou as novas Dioceses de Taubaté, Campinas, Botucatu, São Carlos e Ribeirão Preto. No entanto, Aparecida, juntamente com seu santuário nacional, no Vale do Paraíba, continuou a pertencer à Arquidiocese de São Paulo até 1958. Dom Duarte dedicou especial atenção a Aparecida e já em 1909 conseguiu da Santa Sé o título de basílica para o santuário nacional.

Em 1912 iniciou a construção da nova catedral metropolitana, cuja inauguração estava projetada para o centenário da Independência, em 1922. A obra, porém, teve de ser interrompida por causa das duas grandes guerras e da grave recessão econômica consequente. A edificação foi retomada somente pelo 3.º arcebispo, o cardeal Carlos Carmelo de Vasconcellos Motta, no final da década de 1940 e a inauguração, em 1954, foi feita no contexto das comemorações do quarto centenário da fundação da cidade de São Paulo.

Pastor exímio e administrador sábio, dom Duarte dedicou-se ao bem dos fiéis, em todos os sentidos, e à presença pública da Igreja na sociedade. Deu à arquidiocese uma estrutura pastoral e administrativa adequada às necessidades daquela época, criou muitas paróquias, convidou comunidades religiosas masculinas e femininas para colaborarem no trabalho da Igreja, fez construir o Seminário Central do Ipiranga, criou o Arquivo Metropolitano e o Museu da Cúria, cujo acervo atualmente é abrigado pelo Museu de Arte Sacra. Também realizou o primeiro Congresso Eucarístico de São Paulo, em 1915, o Congresso Eucarístico Nacional de 1922, o Congresso da Mocidade Católica de 1928 e o Congresso Mariano de 1929.

Atento à liturgia, à arte sacra e à música litúrgica, em 1908 nomeou o maestro Furio Franceschini como mestre de capela da catedral metropolitana. Reformou o Cabido, dando-lhe novos estatutos. Em 1918 empenhou-se pessoalmente e envolveu o clero e as organizações da Igreja no socorro aos atingidos pela epidemia de gripe espanhola, que matou 5.372 pessoas na cidade; criou 14 hospitais provisórios em escolas e espaços da Igreja para acolher os doentes.

Figura religiosa austera e respeitada, dom Duarte exerceu expressiva liderança na Igreja Católica do Brasil do seu tempo e manteve com a sociedade uma relação de respeito, autonomia e colaboração. Na Revolução Constitucionalista de 1932 empenhou-se para a superação do conflito e a promoção do diálogo e da paz, com dignidade. Governou a arquidiocese de 1906 a 1938, deixando nela, e na cidade de São Paulo, sua marca indelével.

No dia 15 de março passado o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo dedicou uma sessão à memória de dom Duarte Leopoldo e Silva. É bem justo que, no 150.º aniversário de seu nascimento, a Arquidiocese e a cidade de São Paulo o recordem e lhe prestem homenagem. Grande paulista e paulistano de adoção, dom Duarte fez muito pela grandeza desta metrópole!

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