E a meta de inflação?

Mais preocupante que a inflação em alta - o aumento dos preços ao consumidor passou de 0,41% em agosto para 0,57% em setembro - é o aparente descaso das autoridades em relação ao problema. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, continua defendendo novos cortes de juros, como se o risco de uma escalada de preços fosse desprezível. Repete, com isso, a atitude da presidente Dilma Rousseff, empenhada numa espécie de guerra santa pela diminuição de todas as taxas. Os dirigentes do Banco Central (BC), responsáveis pela política de juros e pela defesa do valor da moeda, parecem aceitar sem grande incômodo a perspectiva de inflação bem acima do centro da meta, de 4,5%, ao longo dos próximos dois anos - e talvez por mais tempo. Metas de inflação, aparentemente, são cada vez menos levadas a sério. No mercado financeiro já se especula sobre a possibilidade de uma nova redução da taxa Selic, na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que começa na terça-feira.

O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2012 | 08h45

A especulação foi reforçada por uma declaração do diretor de Assuntos Internacionais do BC, Luiz Pereira Awazu, na quinta-feira passada. Diante das perspectivas muito ruins da economia global, será conveniente, segundo ele, calibrar os juros para impulsionar a recuperação brasileira. Discursos desse tipo combinam com as preocupações manifestadas pelo primeiro escalão do governo, depois de dois anos de quase estagnação no Brasil. O BC prevê para este ano um crescimento de apenas 1,6%. Para os 12 meses terminados em junho de 2013, a previsão é de um avanço de 3,3%, ainda modesto.

Apesar da expansão econômica muito lenta, o custo de vida tem aumentado. Subiu 3,77% no ano e 5,28% em 12 meses o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado como referência para a política do BC. Com mais três aumentos mensais de 0,3%, a alta acumulada em 2012 chegará a 4,7%, mas dificilmente a evolução será tão moderada neste último trimestre. O próprio BC divulgou uma projeção de 5,2% para este ano.

A explicação das autoridades para a alta de preços é simples e confortável: o índice de inflação tem sido impulsionado pelo aumento das cotações internacionais dos alimentos, uma consequência da seca nos Estados Unidos, e por alguns problemas de produção no Brasil. Não tem sentido, segundo essas autoridades, combater choque de oferta com juros. A alegação seria mais ponderável se o problema fosse mesmo apenas um choque de oferta.

Há sinais muito claros, no entanto, de algo diferente e muito mais grave. Vários grupos de preços de bens e serviços têm subido. Em agosto, 65,66% dos itens cobertos pela pesquisa ficaram mais caros. Em setembro, houve aumentos em 66,48%. Em outras palavras, a alta de preços foi observada em mais de dois terços dos componentes do IPCA. A variação mais importante foi a do custo dos alimentos - 1,26% -, mas a inflação está longe de ser concentrada. A alta dos chamados preços monitorados, como energia elétrica e gás de cozinha, passou de 0,13% para 0,30%. O condomínio aumentou 1,19%, depois de subir 1,11% em agosto. Em vários outros itens a aceleração também foi evidente: calçados (de 0,49% para 1,06%), mobiliário (de 0,60% para 0,96%), aluguel (de 0,43% para 0,61%), serviço doméstico (de 1,11% para 1,24%), para citar só alguns.

Esses dados apontam um desajuste mais sério que um choque de oferta. São claros sinais de inflação de demanda, hipótese perfeitamente compatível com o elevado nível de emprego, com a massa de rendimentos e com a expansão do crédito. A força da demanda explica em boa parte, também, o descompasso entre importações e exportações e a redução do superávit comercial.

O BC projeta inflação de 4,9% em 2013 e de 5,1% nos 12 meses até o terceiro trimestre de 2014. De vez em quando, algum diretor menciona uma possível convergência para o centro da meta já no próximo ano. O otimismo é baseado, em grande parte, na expectativa de acomodação dos preços agrícolas. É um otimismo perigoso, porque o problema, tudo indica, é bem mais sério que um choque de oferta. Um descuido agora pode levar a problemas muito mais graves e de solução muito mais penosa.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.