E agora?

Afinal, quem nos governava junto com o PT, senão o PMDB mais a base alugada?

*Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2016 | 03h01

Oresultado da votação do impeachment nada define de novo nem é o fim de um ciclo, ainda que dê essa impressão. Tampouco é o início de outro ciclo ou de nova etapa – luminosa para uns, brutal ou escravizante para outros. Nada disso. A queda de Dilma Rousseff da Presidência da República nada muda. A não ser a aparência de que algo ou tudo se modifica, o arcabouço da política e do governo permanece igual – alteram-se formas de superfície, surgem outros nomes e outros partidos no governo (como PSDB e DEM), mas as velhas raposas do PMDB e da antiga base alugada que rodearam a presidente afastada ressurgem agora com mais ímpeto.

Afinal, desde o primeiro mandato de Dilma, quem nos governava junto com o PT, senão o PMDB mais a base alugada? Michel Temer já era o vice e, como tal, foi o apoio-mor da presidente. Em 2015 foi até coordenador político de Dilma. Antes e depois manejou ministérios-chave, como Minas e Energia, Agricultura, Comunicações e Previdência, comandou estatais e, nelas, foi cúmplice direto ou indireto (junto com o PP) de tudo o que o PT permitiu ou ofereceu em termos de corrupção. A Operação Lava Jato retrata tudo isso e não é preciso ir adiante!

Em março, quando o processo de queda da presidente engatinhava, escrevi aqui: “O impeachment é só um episódio isolado no contexto geral da política. Resolvida a questão, o tema se esgota, mas a política e a vida não se alteram. Ficam os mesmos partidos, os mesmos parlamentares e chefetes, muitos envolvidos em escândalos ou denunciados por corrupção”.

Na longa e cansativa inquirição de Dilma, bastou ver pela TV o imenso número de senadores que, durante mais de 12 horas, a ouviu sem nada perguntar para entender que aquele silêncio marcava um constrangimento abissal: tinham sido muito próximos dela, “da copa e cozinha”, e haviam passado a arautos da derrubada da presidente. Antigos ministros ou líderes parlamentares do governo Dilma ali estavam como senadores do PMDB para julgá-la e, de antemão, condená-la. Todos haviam antecipado o voto, antes de – como juízes – conhecerem as minúcias da acusação ou os argumentos da defesa.

Ela sentada à mesa diretora e à frente, na primeira fila e sempre calado, o senador Romero Jucá, que fora líder parlamentar do governo cuja deposição coordenou. Adiante, Eduardo Braga, que o substituiu no posto, e Edison Lobão, vindo dos tempos de Lula e que ela manteve nas Minas e Energia. Os figurões do PMDB no Senado não a interrogaram, só o segundo escalão. (A tarefa principal ficou com Aloysio Nunes e o PSDB.) Como inquiri-la em tom acusatório se o PMDB – mesmo indiretamente – participara de tudo, como membro do governo? E mais ainda: alguns deles são réus na Lava Jato por milionárias falcatruas na Petrobrás e adjacências e não se animariam a que ela sequer insinuasse essa situação.

Dilma Rousseff deixou o governo derrotada no Senado por uma maioria avassaladora que, antes mesmo de os senadores se tornarem juízes, já havia decidido derrubá-la. Em verdade, não caiu só pelo governo medíocre que presidiu, nem apenas pelo discutível “crime de responsabilidade”, similar ao praticado por todos os antecessores. Mais que tudo, foi derrubada porque a política no Brasil passou a ser uma disputa de ambição e cobiça pessoal, em que se administram os órgãos do Estado para criar vantagens a serem distribuídas intramuros entre os apaniguados.

Assim, num país onde os políticos mudam de partido como se trocassem de camisa suada no verão, a cobiça manda mais do que as posturas políticas – aguça a ambição e a ambição passa a ser a grande meta. Para usufruí-la de cheio tudo vale.

Entre nós, há muito os partidos não têm doutrina. Nascem a granel, por inseminação a esmo, sem pai nem mãe conhecidos nem localizáveis, e assim a avidez por qualquer forma de poder (seja qual for) se torna dominante. E inocula seus membros sem que eles percebam ou desejem, até. Em busca rápida da notoriedade que significa poder (ou que pode levar ao poder), o xingamento, o palavrão ou o insulto substituem o debate parlamentar e a discussão crítica.

Temos, então, o “hospício”, como o próprio presidente do Senado, Renan Calheiros, definiu a sessão memorável que “debateu” o processo de impeachment em meio a berros de acusação pessoal de ambas as partes, quando os senadores Ronaldo Caiado (contra Dilma) e Lindbergh Farias (pró-Dilma) usaram a ofensa e o ultraje recíproco como se disputassem um torneio de absurdos no mundo abjeto do crime e do narcotráfico.

Não foram só os inumeráveis defeitos de Dilma como presidente que a levaram a cair. Nem a inércia do conjunto do medíocre governo de coalizão do PT e PMDB com a base alugada. A decisão sobre o impeachment, costurada aos poucos, surgiu dos defeitos do nosso sistema partidário, agravado pelo oportunismo próprio da condição humana. Mas Dilma e o PT comungam culpas. Na maratônica interpelação de 12 horas, ela foi afável e minuciosa, com precisão e tato que levavam a esquecer a chefe de governo que inventou chamar-se “presidenta” e confundia dados e números sem propósitos. Já era tarde, porém. A fluência e o brilho de José Eduardo Cardozo igualaram-se, ou até superaram, os do acusador Miguel Reale Júnior, mas os senadores nem prestaram atenção. Já tinham o voto de juízes antes de serem juízes.

Exemplo disso é a explicação que o senador Garibaldi Alves, do PMDB, deu para votar contra Dilma: “Fui ministro de Comunicações e ela nunca me recebeu no gabinete”. Mas nisso se desnudava, também, como era esse ministério, que atendia a interesses de uma falsa coalizão, não a planos de governo.

Se o próprio Temer assegura que vai manter todas as peripécias demagógico-populistas de Dilma (que, em parte, são dele também) ou tudo o que veio de Lula, por que dizer que alguma coisa mudará?

*Jornalista e escritor, prêmio Jabuti de Literatura em 2000 e 2005

 

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