E depois das torres gêmeas?

Na próxima semana será lembrado o 11.º aniversário dos atentados contra as torres gêmeas do World Trade Center, momento dramático que mudou o mundo. Naquela manhã de setembro de 2001 o autor destas linhas estava - como já foi narrado aqui - em Tefé, no Amazonas, de onde embarcaria em "voadeiras" rumo à Reserva de Mamirauá, tema de um documentário para a TV Cultura de São Paulo. Deu tempo de ver - mas sem saber o que era aquilo - as cenas terríveis na televisão antes de nos embrenharmos naquela imensidão de água, floresta e céu nos Rios Juruá e Solimões. Seria o começo da 3.ª Guerra Mundial?

WASHINGTON, NOVAES, JORNALISTA, E-MAIL: WLRNOVAES@UOL.COM.BR, WASHINGTON, NOVAES, JORNALISTA, E-MAIL: WLRNOVAES@UOL.COM.BR, O Estado de S.Paulo

07 Setembro 2012 | 03h08

Ao cabo de muitas horas, no fim do dia, num posto flutuante do Ibama - sem nenhum tipo de comunicação com qualquer lugar, por qualquer meio -, persistia a pergunta: era uma guerra? Sem resposta, o jeito era ouvir, na imensidão da noite mergulhada em água e floresta, um disco de Egberto Gismonti - prova da harmonia possível entre criação humana e natureza. E imaginar que talvez o mundo não precisasse viver no contexto de violência e destruição. Mas só ao fim de cinco dias, depois de documentar a biodiversidade, rodeando ilhas, pudemos afinal saber em outro posto que se tratava de um atentado promovido por terroristas.

Onze anos depois, não é possível fugir à constatação de que nesse tempo a dramaticidade só se exacerbou, seja no campo do terrorismo, das crises econômicas, das revoluções políticas sem objetivo claro. Com a agravante de que também chegam a pontos críticos as crises financeiras e as relacionadas com o mundo natural - água, solo, ar, biodiversidade.

Tudo isso era imprevisível? Como, se desde a década de 80 órgãos da ONU vêm advertindo para a gravidade crescente? Como lembra o leitor Tadeu Araujo, ao comentar o artigo da semana passada neste espaço, já em 2007, ao receber o Prêmio Nobel da Paz, Al Gore, ex-vice-presidente dos EUA, disse: "Quanto mais fundo procuro as raízes da crise global do meio ambiente, convenço-me de que é uma manifestação externa duma crise interna que é, na falta de uma palavra melhor, espiritual".

Mesmo que se trafegue por outros caminhos, vai-se ver que estava tudo escrito no horizonte. George Soros, o megainvestidor que passou de estudante de filosofia a dono de uma das maiores fortunas do mundo - ao antever que o lançamento de satélites de comunicação revolucionaria o mercado de capitais, tornando-o planetário, ao permitir operações durante as 24 horas do dia em todas as praças -, já dizia em 1995 estar "a caminho um processo de desintegração da Europa. É apenas uma questão de tempo que as pessoas comecem a advogar proteção contra moedas desvalorizadas, colocando em xeque a própria existência do mercado comum" (George Soros - o Megainvestidor Revela sua Visão e Estratégias de Mercado, Editora Nova Fronteira). E tudo isso antes que se configurasse com mais clareza a crise econômico-financeira global, que só de 2007 para cá elevou a dívida mundial de 123 países de US$ 30 trilhões para US$ 49 trilhões, mais 63% (FMI/The Economist).

A seu ver, o início da confusão estava no fim da URSS. E na incapacidade da ONU de intervir com eficácia, já que cada Estado tem interesses diversificados e que impedem acordos globais - como ocorre até hoje. Mas na época ele ainda tinha esperança: "Por um lado, precisamos de uma organização internacional para preservar a paz e a ordem, porque não podemos e não devemos atuar como polícia do mundo. Por outro lado, a organização internacional que temos, as Nações Unidas, é inadequada. Portanto, devemos nos esforçar para fazê-la funcionar". O momento atual da situação na Síria - é um dos exemplos possíveis - parece indicar que esse caminho não foi ainda encontrado. Soros chega a pensar que "os problemas do mundo, a questão da ordem mundial e da reforma das Nações Unidas, são praticamente insolúveis".

Voltemos à Amazônia, então. Nestes 11 anos as questões lá se agravaram muito. Quase 20% da floresta já se foi e isso terá consequências sérias no clima, não apenas daquele bioma, mas dos vários biomas nacionais que dependem das condições ali. Há cientistas que preveem aumentos de até 5 graus Celsius na temperatura amazônica até o fim do século, ainda que as taxas de desmatamento tenham caído.

Mas o desmatamento não é a única questão. Mostra a Agência Nacional de Energia Elétrica que os projetos de hidrelétricas na área afetarão oito Estados e cinco reservas indígenas (que são o melhor caminho para a conservação da biodiversidade), além de atingirem mais de 110 mil pessoas. Segundo o Instituto Imazon, 480 milhões de árvores serão derrubadas em um ano. O governo federal quer reduzir em um terço a área da Floresta Nacional do Jamanxim. Uma medida provisória dificulta a regularização de terras indígenas - e seus habitantes estão em pé de guerra.

E há mais. Autorizam-se novas usinas nos Rios Tapajós e Teles Pires, além da Ilha do Bananal (onde há várias aldeias indígenas e 3 mil sítios arqueológicos importantes). Ao todo, o governo federal destina R$ 67 bilhões a hidrelétricas. O que não daria para fazer com esses valores na área das energias eólica, solar, de marés e outras? E sem falar que o Ministério do Meio Ambiente tem menos de 1% do Orçamento federal, com um quarto de suas verbas contingenciadas. Como gerar soluções adequadas?

Onze anos passados do episódio das torres gêmeas, parecemos continuar nos perguntando: estamos ameaçados por uma guerra? E em relação à Amazônia encantadora, água e floresta em harmonia com a música de Gismonti, não há dúvida de que a inquietação e o temor só crescem.

Se não somos o único protagonista e não podemos ditar, sozinhos, as regras locais e internacionais de convivência entre as nações, certamente temos condições de criar uma verdadeira estratégia de valorização de tudo o que é escasso no mundo e está por aqui.

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