Educação sindical

A partir da próxima semana, as montadoras e grandes empresas de autopeças de São Bernardo e São Caetano passarão a liberar seus funcionários durante um dia por ano para que possam receber aulas sobre sindicalismo ministradas por professores contratados pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. As primeiras turmas serão da Mercedes-Benz. Ao todo, serão beneficiados 70 mil metalúrgicos e as aulas serão dadas no clube de campo do sindicato, até que o prédio recém-comprado para essa atividade seja reformado.

, O Estado de S.Paulo

19 Julho 2010 | 00h00

A liberação de um dia de trabalho para os funcionários do setor automobilístico aprenderem sindicalismo é um dos principais itens da convenção coletiva da categoria assinada em outubro do ano passado. A iniciativa vinha sendo discutida desde 2003, quando comitês sindicais constituídos pelas empresas do ABC passaram a incluí-la na pauta de reivindicações negociada anualmente. Com as novas técnicas de produção propiciadas pelo avanço tecnológico, as lideranças sindicais perceberam que, sem treinamento e reciclagem, seus liderados tenderiam a ficar defasados. A partir daí, formação e requalificação passaram a ser tão importantes quanto os pleitos de reajuste salarial nos dissídios coletivos.

Os metalúrgicos do ABC foram fortemente atingidos pelas grandes transformações econômicas ocorridas na passagem do século 20 para o 21. Há 30 anos havia no Brasil apenas cinco montadoras, sem possibilidade de entrada de novas empresas, e os metalúrgicos podiam dar-se ao luxo de fazer greves longas e de converter o Estádio de Vila Euclides em imenso palanque político. As empresas acabavam concedendo o que os sindicalistas pleiteavam e, em seguida, repassavam para os consumidores o aumento da folha de pagamento.

A abertura econômica propiciada pelo Plano Real, nos anos 90, mudou radicalmente esse cenário. Com a chegada de novas empresas, as montadoras instaladas tiveram de competir ferozmente para manter sua posição no mercado, o que as obrigou a endurecer nos dissídios coletivos, para evitar aumento de custos. As novas tecnologias também propiciaram a informatização da produção, o que levou ao fechamento de milhares de postos de trabalho e, por tabela, enfraqueceu o poder de negociação do sindicato. Além disso, para fugir do grevismo selvagem da Central Única dos Trabalhadores, algumas montadoras instalaram novas fábricas no Rio Grande do Sul, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia, onde o custo médio da hora trabalhada é bem menor do que no ABC.

Essas mudanças geraram uma crise no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que após a década de 90 viu despencar o número de filiados e perdeu a força política que detinha na década de 70. Desde então, a pauta de reivindicações mudou. Em vez de exigir somente aumento real, como no passado, os metalúrgicos passaram a reivindicar mais educação e treinamento. Hoje, 20 mil trabalhadores da indústria automobilística do ABC têm menos de 24 anos de idade e 35 mil têm entre 25 e 40 anos, desconhecendo assim as "lutas históricas" da categoria dos anos 70. "Não se pode afugentar as empresas e os investimentos daqui, porque de outra forma o resultado seria pior para os empregos. O trabalhador precisa entender que o sindicato tem de evoluir junto com a região. O mundo mudou, as empresas e o Estado mudaram ao longo dos últimos 30 anos. Os trabalhadores mais jovens não conhecem essa evolução", diz o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, Sérgio Nobre.

Graças a essa nova mentalidade entre os metalúrgicos do ABC, que passaram a ver o patronato como parceiro, as montadoras voltaram a investir no ABC, o que levou o nível de emprego na região a registrar um crescimento surpreendente nos últimos anos. Foi para atender a esse imenso contingente de novos trabalhadores que as lideranças sindicais negociaram o acordo pelo qual eles serão liberados um dia por ano para ter aulas de sindicalismo.

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