Einstein, Hawking, Ratzinger: ciência e religião

Não cabe aos cientistas negar a existência de Deus, mas apenas tentar explicar os fenômenos sem recorrer a hipóteses que não podem ser comprovadas

JOSÉ GOLDEMBERG*, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2018 | 03h00

Einstein é, sem dúvida, o cientista mais importante do século 20, só comparável, a Newton e Galileu. Nascido em 1879, suas contribuições mais importantes à ciência foram feitas nas primeiras décadas do século 20, quando tinha entre 25 e 35 anos.

Nesse período formulou a Teoria da Relatividade, que mudou a nossa percepção do universo. Em 1921 recebeu o Prêmio Nobel, mas suas contribuições marcaram de tal forma o desenvolvimento da ciência que em 2017 foi atribuído outro Prêmio Nobel aos físicos que foram capazes de fazer a detecção das ondas gravitacionais, cuja existência ele havia previsto um século atrás.

Nos seus anos mais maduros, Albert Einstein dedicou sua atenção a problemas éticos, à filosofia, ao sionismo e ao pacifismo, entre outras questões, sobre as quais opinou com o peso de sua notoriedade como cientista.

Em 1939, já com 60 anos, escreveu um curto ensaio sobre “ciência e religião”, seguido por outro sobre o mesmo tema em 1941. Neles expõe seus pontos de vista sobre religiões e a existência de Deus.

Segundo Einstein, existe entre muitos cientistas a ideia de que é preciso substituir a crença pelo conhecimento e de que não há lugar na ciência para superstições e religião, ou seja, que os cientistas são necessariamente ateus. Ele não concorda com essa visão, pois o método científico não pode ensinar nada além do modo como os fatos se relacionam e quais as relações de causa e efeito entre eles. Não cabe aos cientistas negar a existência de Deus, mas apenas tentar explicar os fenômenos que ocorrem em torno de nós sem recorrer a hipóteses que não podem ser comprovadas, como a existência de Deus.

Só para dar um exemplo, o movimento da Terra e dos planetas em torno do Sol é completamente explicado pela Lei da Gravitação Universal de Newton, não sendo necessário invocar a divindade para explicá-lo. Nesse caso é bem conhecida a resposta que Laplace, cientista francês, deu a Napoleão, a quem mostrou um modelo do sistema solar baseado nas ideias de Newton. Napoleão disse a Laplace que não via a presença de Deus no modelo, Laplace respondeu que não tinha necessidade dessa “hipótese” para explicar os movimentos da Terra e dos planetas.

Einstein rejeita a ideia de “Deus pessoal”, no que se aproxima das ideias de Spinoza, em que Deus se revela na harmonia de tudo o que existe, e não o Deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos humanos. Segundo ele, durante o período juvenil da humanidade a fantasia humana criou a sua própria imagem de deuses que por seus atos de vontade supostamente determinariam ou ao menos influenciariam o mundo. O homem procurava alterar a disposição desses deuses a seu próprio favor pela magia e pela prece. O caráter antropomórfico desse Deus se revela especialmente quando as pessoas tentam lidar com a morte ou violentos conflitos entre pessoas e entre nações, e se refugiam na ideia da existência de um paraíso ou da reencarnação.

Essa é uma das explicações que têm sido dadas para o fato de a religião ter-se tornado tão popular na Rússia após 70 anos do regime comunista, declaradamente ateu, que tentou eliminar o apoio a ela, considerada pelo regime como o “ópio do povo”.

Joseph Ratzinger, que se tornou Bento XVI em 2005 e abdicou do papado há cinco anos, nasceu em 1927 e foi provavelmente o papa mais culto dos últimos séculos. Um estudioso e pesquisador, ele escreveu extensamente sobre as origens do cristianismo. Considerado um papa conservador, presidiu a sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, na qual disciplinava os que se afastavam dos caminhos tradicionais da Igreja Católica.

Surpreendentemente, contudo, nos livros que escreveu Ratzinger tem posições esclarecidas sobre os conflitos entre ciência e religião.

Ratzinger fez um esforço considerável em seus escritos para evitar os erros que a Igreja cometeu no passado, por exemplo, condenando Galileu por não reconhecer que a Terra era o centro do sistema solar. Mais ainda: ele não nega a Teoria da Evolução de Darwin, ao declarar num dos seus escritos que no “código genético humano nós reconhecemos a linguagem de Deus”. A crença de que todos os seres vivos têm origem no ato da Criação deixa de ser necessária.

Ratzinger nos diz ainda que a Bíblia não pretende narrar de forma literal a história da “criação do universo em seis dias”. Como se sabe a ciência já estabeleceu que o nosso universo foi criado numa grande explosão, o “big-bang”, cerca de 13 bilhões de anos atrás. Haveria aqui um papel essencial para o criador, que Einstein não nega. Antes de Ratzinger, o papa João Paulo II já havia admitido que esse era o único papel do Criador e o que se seguiu depois da explosão inicial decorre das leis da física, sem a necessidade de invocar Deus a todo instante.

As percepções de Einstein e de Ratzinger parecem mostrar alguma convergência; a de um cientista que não se diz ateu ou materialista, mas acredita em algo superior ao homem, e a de um sacerdote inteligente que reconhece que não é necessário invocar o nome de Deus para explicar o que acontece em torno de nós, como a evolução da vida, o movimento dos planetas e a evolução do universo.

Contudo Hawking, o grande físico inglês falecido recentemente, desqualificou a necessidade do Criador na origem do universo ao sugerir que ele surgiu como resultado de flutuações quânticas. Em seu trabalho ele faz uma analogia com as bolhas que se formam quando a água ferve. Cada uma dessas bolhas, que se expandem, é como um universo – dos quais há muitos, tal como as bolhas na água fervente.

Essas teorias são controvertidas e aguardam confirmação experimental. Enquanto isso não se concretizar, a polêmica sobre a existência de Deus vai continuar.

*PROFESSOR EMÉRITO E EX-REITOR DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP)

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