Eleitor experiente

Ao contrário das previsões que apontavam para maior peso dos jovens nessas eleições, em comparação com as anteriores, os números do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indicam que o eleitorado envelheceu, acompanhando a tendência da população detectada pelo IBGE.

O Estado de S.Paulo

04 Agosto 2014 | 02h04

Pelas informações estatísticas divulgadas pelo TSE, serão 142,8 milhões de eleitores nas eleições de 2014, o que significa um acréscimo de 2,17 milhões em relação às de 2012. Quando se compara com as eleições presidenciais de 2010, há mais 7 milhões de pessoas com título de eleitor. É quase o total de eleitores do mais populoso município brasileiro, São Paulo, que conta com 8,78 milhões de eleitores (dez vezes mais que o segundo município do Estado de São Paulo em número de eleitores, Guarulhos, com 868 mil). A desproporção entre os Estados também permanece alta. São Paulo tem 32 milhões de eleitores (22,4% do total do eleitorado brasileiro), enquanto Roraima - o Estado brasileiro menos populoso - tem 1,1 milhão (0,8%).

Destaca-se a diminuição do eleitorado facultativo jovem, entre 16 e 17 anos. Em 2010, eram 2,4 milhões de eleitores nessa faixa etária. Agora, são apenas 1,6 milhão, um decréscimo de 31,5%. Tal dado vem corroborar o distanciamento e o desinteresse da juventude pela política, fenômenos frequentemente anunciados e debatidos, mas que agora recebem uma comprovação fática.

Não faltam histórias de pessoas que poderiam votar, mas preferiram não fazê-lo. É o caso de Letícia Vieira, 17 anos, estudante do ensino médio. Em entrevista ao Estado, contou que desistiu de tirar o título ao saber que havia perdido a vaga de um emprego em um shopping. "O título de eleitor, se vale alguma coisa, é só para trabalhar, porque não dá para usá-lo para votar." E justificava a sua posição dizendo que os políticos, "todos corruptos", "não cumprem o que prometem. Então, para que votar?".

Ainda que o Brasil continue a ser um país jovem - quando comparado com países desenvolvidos, especialmente os europeus -, a baixa taxa de natalidade e o aumento da expectativa de vida já apresentam seus sintomas no eleitorado nacional. Nas próximas eleições, serão 58 milhões de eleitores acima de 45 anos (40,7% do total do eleitorado), 33,2 milhões entre 35 e 44 anos (19,9%) e 56,3 milhões de eleitores entre 16 e 34 anos (39,4%). Em 2010, a parcela de mais idade (acima de 45 anos) correspondia a 38% da população; a intermediária (entre 35 e 44 anos), a 20%; e a mais jovem (abaixo dos 34 anos), a 42% do total do eleitorado. São mudanças significativas para um período de 4 anos e podem influenciar os resultados.

Além da idade, as estatísticas indicam uma alteração no grau de instrução. Pela primeira vez, haverá mais eleitores com ensino superior completo (8 milhões, 5,6%) do que analfabetos (7,4 milhões, 5,2%). Nas eleições de 2012, a situação era inversa: 7,8 milhões de eleitores analfabetos ante 6,2 milhões com o ensino superior completo. No entanto, o grau de instrução com maior proporção no eleitorado continua sendo o ensino fundamental incompleto: 33,08% dos eleitores em 2010 estavam nessa categoria, e agora são 30,2%.

Se as causas para essas mudanças no eleitorado não são difíceis de serem identificadas - por exemplo, o envelhecimento da população e a crescente universalização do ensino -, os seus efeitos ainda precisam ser desvendados. Como se comportarão, por exemplo, os eleitores com mais de 35 anos (60,5% do eleitorado), que viveram o período pré-Plano Real, com altas taxas de inflação? Essa mesma faixa etária já participou de, no mínimo, quatro eleições presidenciais e tem experiência de como funciona a corrida eleitoral, com as suas promessas, os seus debates. É gente escaldada, que certamente não verá com olhos ingênuos o horário eleitoral gratuito.

Há uma mensagem inequívoca que o perfil do eleitorado impõe aos atuais candidatos: a urgente necessidade de uma melhora qualitativa do debate eleitoral. Seja porque os eleitores estão mais experientes, seja porque os jovens estão mais desiludidos. O eleitor quer mais. O eleitor exigirá mais.

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