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Em defesa da Faculdade de Filosofia da USP

Carlos Guilherme Mota - O Estado de S.Paulo

27 Agosto 2014 | 02h 04

A Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH) vive momento dramático de sua história. Parada, encalacrou-se no impasse da greve que paralisa o segmento das Humanidades, iniciada no clima da inoportuna Copa dos bilhões, aprofundada nas férias de julho e beneficiando-se da continuidade do pagamento salarial.

Hora de voltar-se aos exemplos de seus antigos professores, defensores intransigentes de nossa faculdade e da escola pública pela formação democrática de novos quadros, como Fernando de Azevedo, Florestan Fernandes, Antonio Candido, Maria Isaura Pereira de Queirós, Mario Schenberg e Lívio Teixeira, entre tantos outros. Todos intelectuais que lideravam nossa comunidade de professores, tornaram-se admirados e respeitados por alunos e funcionários que acompanhavam e defendiam a escola, formadora de novos quadros docentes e de pesquisadores que dariam novo rumo ao ensino secundário, então dominado pela cultura de campanário. Na pesquisa, aprofundaram-se as especializações, da Sociologia à Matemática, da Biologia à Física e Química, da Psicologia à Antropologia e História, da Política à Filosofia, da Geografia à Literatura, sempre a partir de uma perspectiva transdisciplinar e humanista.

Nossa faculdade nasceu no clima político e cultural do impactante Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (1932), documento fundamental (hoje desconhecido) coordenado sobretudo por Fernando de Azevedo, e também por Anísio Teixeira. A jovem faculdade, "moderna" e diferenciada das outras, tornou-se logo uma Escola com E maiúsculo, envolvendo-se em campanhas como a da defesa da escola pública, com Fernando de Azevedo e Julio de Mesquita à frente. Como escreveu Antonio Candido na Plataforma da Nova Geração (1944), éramos uma expressão do "pensamento radical de classe média" para "combater todas as formas de pensamento reacionário".

O problema é que as atuais lideranças uspianas - incluídas as sindicais - desconhecem solenemente tal ponto de partida e não sabem aonde é necessário chegar; faltos de ideias, parecem debater-se num quarto escuro em busca da lâmpada queimada. As atuais lideranças da faculdade, felizmente, preocupam-se com o futuro da escola. Sabem que foi ela a importante Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras - localizada no centro do organograma da USP quando de sua fundação - e sobreviveu a duas expulsões. Com o que restou, sobreviveu à "reforma" universitária (1970), quando foi desmembrada, à cassação de mestres insignes pela ditadura e à perseguição de outros. Quem resistiu enfrentou a ditadura civil-militar de 1964 e ajudou a instituição a se recuperar da mediocrização e do trauma das cassações, executadas sob orientação de colegas da direita uspiana em conluio com Brasília.

Naqueles anos de barbárie, a escola continuou a formar quadros profissionais, contra direitas ensandecidas e esquerdas desbussoladas. Sua produção científica e cultural foi retomada, mantém excelente nível, recebendo notas altas e aprovação das agências avaliadoras da pesquisa nacional.

A Faculdade de Filosofia continua, apesar de tudo, a oferecer à sociedade instrumentos para compreender o Brasil atual, seus impasses e desafios. Permanece referencial, produtiva, e urge resgatá-la desse processo de autodestruição irreparável.

A hora é de as novas lideranças de professores, funcionários e estudantes recuperarem o sentido de sua história. Há que perceber que na atualidade brasileira se entrecruzam banalização, infantilização e mediocrização dos meios de renovação educacional e cultural; o neopopulismo acadêmico, de fundo autoritário, que nivela por baixo iniciativas de efetiva renovação universitária, minando a faculdade; e o abandono da ideia de que sólidos valores humanistas e boas escolas - como a nossa faculdade - são imprescindíveis para a formação individual e coletiva. Neste país de "miséria farta" (como conceituou o educador Anísio Teixeira), a escala mudou, e para pior. A questão é: que fazer para a Faculdade de Filosofia voltar a formar, como antes, professores para o ensino médio da rede pública, o mesmo valendo para outras faculdades da USP, como o Instituto de Matemática?

Nos últimos tempos, das lições do passado pouco se aprendeu. Não me refiro só a atos como pichações, "cadeiraços" ou depredação e vandalização impune de prédios públicos nem ao desgoverno do reitorado Grandino Rodas, que deixou finanças e projetos da USP no chão e "inchou" os quadros funcionais. Refiro-me, sim, ao fato de uma greve dessa natureza ser desmobilizadora, com bibliotecas fechadas. Cada um foi para seu canto, perdendo-se mais uma oportunidade para a Faculdade de Filosofia recuperar seu antigo prestígio, articular-se com outras unidades da USP para discutir a esperada reforma pedagógica e institucional em profundidade, e para mostrar à sociedade que nos paga que (ainda) temos um papel histórico, de indiscutível utilidade na formação de pesquisadores e professores. Portanto, é preciso um basta! Governador, reitorado e grevistas precisam se entender, pois urge retomar as aulas e tocar as pesquisas.

O momento é de urgência para o governador Geraldo Alckmin despertar e entrar em acordo com o atual reitor da USP para sairmos do impasse. Bastariam os exemplos de estadistas que o antecederam e ficaram na História: Armando de Salles Oliveira (que criou a USP), Carlos Alberto Carvalho Pinto (que criou a Fapesp com grandes mestres da casa, etc.), André Franco Montoro (que trouxe ares reformistas, recursos e ações, hoje abandonadas).

O governo Alckmin corre o risco de ficar na História como o que, mestre do silêncio, se beneficiou da suposta "independência" financeira das universidades estaduais (invenção do ex-governador Orestes Quércia para lavar as mãos como Pilatos) e "se livrou" das greves de antanho, hoje reavivadas pobremente. Pois os problemas permanecem os mesmos, embora cada vez maiores.

*Carlos Guilherme Mota é historiador, professor emérito da FFLCH-USP e professor titular da Universidade Presbiteriana Mackenzie

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