Embalsamamento tardio

A inexorável degenerescência orgânica e a crônica incompetência de áulicos de pouca prática podem prejudicar a candidatura do chavista Nicolás Maduro nas eleições presidenciais da Venezuela, em 14 de abril, de uma forma que nem o mais otimista oposicionista preveria. O candidato oficial, que substitui o extinto no governo desde a última viagem deste para Havana, reconheceu publicamente que um dos símbolos de sua campanha - o cadáver do comandante - pode sair de cena, porque o processo de seu embalsamamento não foi providenciado em tempo hábil.

O Estado de S.Paulo

16 Março 2013 | 02h10

A Constituição tinha sido o primeiro obstáculo à intenção do governo bolivariano da Venezuela de expor os despojos do ex-chefe no Panteão Nacional, construído por Chávez para abrigar os restos mortais de Simón Bolívar, o venerado patrício que sempre teve a memória exaltada a ponto de dar nome à moeda local. No regime chavista, o Libertador tornou-se padroeiro do esquisito socialismo pregado por Chávez. Talvez porque, antes de completar 60 anos, não contasse com a própria morte tão cedo, ele introduziu na Constituição que impôs ao país a proibição de homenagear alguém no monumento antes que se completassem 25 anos de sua morte. O pranteado desaparecimento do líder, contudo, forçou seu indicado à sucessão a propor ao Congresso que votasse uma alteração nesse dispositivo para permitir a honrosa exceção.

A autorização para expor o cadáver embalsamado de Chávez no monumento a Bolívar foi dada pelo submisso Parlamento local, com o aval rápido do Judiciário. Luísa Estella Morales, presidente do Supremo Tribunal de Justiça, cujos membros foram em sua grande maioria nomeados pelo ex-presidente e, enquanto viveu, lhe devotaram canina fidelidade, atestou que a emenda não altera o sentido da norma, mas apenas muda um termo "para facilitar sua aplicação". Segundo Morales, "a letra da Constituição é que se esperariam 25 anos para examinar os méritos da pessoa para que ela fosse admitida no Panteão Nacional, mas o presidente, em seus 58 anos, conseguiu demonstrar méritos suficientes".

A transposição do obstáculo constitucional, contudo, não evitou o descuido dos seguidores do supremo chefe bolivariano quanto ao atendimento das implacáveis leis da biologia. Maduro foi obrigado a informar a seus devotos eleitores sobre o risco real de o cadáver se decompor devido ao tardio início do processo de embalsamamento. Foram chamados cientistas russos e alemães para darem início aos preparativos, mas estes informaram às autoridades que o procedimento teria de ter começado antes. "Eles nos dizem que está muito difícil, porque o processo de embalsamamento deveria ter começado imediatamente após a morte, e que agora não se pode mais. Estamos no meio de um processo, um processo delicado. É meu dever avisar a vocês", informou Maduro.

Tudo indica, portanto, que os venezuelanos não poderão preservar o corpo de Chávez como pretendiam, imitando a política de culto à personalidade do líder, adotada antes por ditaduras comunistas. Enquanto a União Soviética existiu, filas de militantes e turistas se formaram no monumento construído por Stalin para a exposição do cadáver de Lenin, líder da revolução bolchevique de 1917, na Praça Vermelha, em Moscou. Ho Chi Minh, o herói da guerra que unificou o Vietnã sob um regime comunista, e o chinês Mao Tsé-tung também se tornaram objetos de curiosidade depois da morte.

O eventual malogro do embalsamamento de Chávez não altera a previsão dos especialistas sobre o favoritismo de Nicolás Maduro na disputa contra o oposicionista Henrique Capriles. No entanto, a inesperada revelação põe em xeque a versão oficial de que o comandante teria morrido em 5 de março. Ou ele teria morrido em Havana, antes de ser transportado para a Academia Militar, em cujo hospital teria passado os últimos dias, ou seus herdeiros no poder se mostraram incapazes de tomar as providências necessárias para evitar a decomposição do cadáver. O que se pode esperar deles, então, na gestão da grave crise econômica?

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