Empobrecimento acelerado

Nos últimos anos, o PT não perdeu oportunidade de alardear o “incrível desenvolvimento social” ocorrido durante os dois governos de Lula e o primeiro mandato de Dilma Rousseff. Vendia-se como detentor do monopólio da preocupação social, preocupação essa que teria norteado as decisões do governo federal desde 2003. O partido teria cometido alguns equívocos – eufemismo para não admitir a prática de crimes –, mas tudo isso estaria desculpado pelos espetaculares resultados sociais transferidos a toda a população. A prova de tudo isso – assim dizia o esfarrapado discurso, que nada mais era do que dizer que os fins justificam os meios – estava na ascensão social de tantas famílias.

O Estado de S. Paulo

06 Junho 2016 | 03h00

No entanto, até mesmo esse dado está agora desmoronando. De acordo com a Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa (Abep), quase 1 milhão de famílias desceu um degrau na escala de consumo entre 2015 e 2016. O patamar socioeconômico de 910 mil famílias mudou para pior, afirma o estudo Critério Brasil, que estima a renda permanente das pessoas a partir da posse de bens – banheiro, automóveis, eletrônicos e eletrodomésticos – e outros dados, como, por exemplo, se há empregado doméstico no domicílio, o grau de instrução do chefe da família e o acesso a alguns serviços públicos, como rua pavimentada e água encanada.

O estudo indica que, de 2015 para 2016, a classe que abrange famílias com renda média de R$ 4,9 mil (chamada de B2) perdeu 533,9 mil domicílios. Antes, essa classe representava 18,1% das famílias no País. Agora, são 17,3%. Especialistas reconhecem que essa faixa de renda é especialmente afetada pela crise pois seus integrantes são mais dependentes do emprego formal – têm eles maiores dificuldades em conseguir uma fonte de renda extra.

Também diminuiu a categoria dos que ganham em média R$ 2,7 mil (classe C1) – são 456,6 mil famílias a menos nessa faixa de renda. Consequentemente, houve aumento de pessoas nas faixas mais pobres. Na categoria das famílias com renda média de R$ 1,6 mil (C2), o incremento foi de 653,6 mil domicílios. E outras 260 mil famílias passaram a fazer parte das classes D e E, com renda média de R$ 768.

“Porcentualmente, esse movimento é pequeno. Mas, em termos absolutos, estamos falando em um acréscimo de 910 mil famílias nas classes pobres em apenas um ano. É um número expressivo”, afirmou Luis Pilli, um dos coordenadores do estudo.

Segundo Pilli, o resultado causou surpresa pois “houve redução muito rápida do padrão de vida”. A velocidade do atual empobrecimento destoa do que se constatou em crises anteriores, quando as pessoas demoravam mais a abrir mão do carro ou mudar para uma casa menor, por exemplo. “São decisões que geralmente demoram algum tempo para serem tomadas”, reconheceu Pilli.

Além de atestar a gravidade da crise atual – longe está de ser ela mero reflexo de fatores internacionais, como continua insistindo em afirmar equivocadamente a presidente afastada Dilma Rousseff –, o acelerado empobrecimento também joga luzes sobre a natureza do tão apregoado progresso social promovido pelos governos petistas. Todos aqueles avanços que Lula orgulhosamente bradava como sólidas conquistas sociais – a compra do primeiro automóvel, a viagem de avião, etc. – estão se mostrando bem fugazes. Mais do que um sustentável desenvolvimento social, o que parece ter havido foi um aumento circunstancial da renda, revertido apenas em temporários bens de consumo.

É também evidente que a atual derrocada social não foi provocada por “políticas ortodoxas de direita”, como repetiu maliciosamente o PT na campanha eleitoral de 2014. A crise que afeta de forma tão contundente as famílias foi causada por decisões dos governos petistas. A culpa deve ser atribuída a esse estranho modo de governar – em que o interesse público é substituído pelos interesses partidários, e a lei e o bem-estar da população passam a ser meros detalhes.

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