Emprego, preço e voto

A presidente Dilma Rousseff escolheu um evento da Central Única dos Trabalhadores (CUT), na quinta-feira da próxima semana, para iniciar efetivamente sua campanha à reeleição. Afora o fato de que uma entidade do gênero, receptora de fundos públicos, não poderia se prestar a isso, tivessem o PT e seus tentáculos sindicais um mínimo de decoro - e que a escolha representa a plena retomada do estratagema lulista em 2006 de dividir o País entre "nós" e "eles" -, o desafio que pode tolher o avanço da candidata rumo às urnas consiste precisamente no mal-estar que poderá se difundir nas classes que ela chamaria "nossas".

O Estado de S.Paulo

24 Julho 2014 | 02h05

Os sintomas iniciais de desconforto, capazes de se transmutar em pessimismo, decerto não foram inoculados nos que os experimentam pela mídia "a serviço das elites". Se Dilma quisesse de fato descobrir o que os origina, bastaria que ousasse estabelecer uma relação de causa e efeito entre os seus quatro anos no poder e o sombrio quadro econômico atual. Trata-se, sem exagero, do pior dos mundos: produção - logo, emprego - rolando ladeira abaixo e custo de vida nas alturas. Essa combinação perversa não é uma abstração estatística: é uma ameaça aos assalariados.

Os prognósticos oficiais de um PIB minimamente decente - de novo revistos para menos - se desmancham no ar. O risco real e presente é o de se fechar o ano com uma variação abaixo até de 1%. Isso se traduz evidentemente em queda da oferta de trabalho. Tanto em junho como no acumulado do primeiro semestre, o crescimento do emprego foi o mais baixo desde 2008. No que foi o carro-chefe da economia, a indústria hoje em recessão, o que há é desemprego mesmo: 16,5 mil vagas fechadas em junho, 96,5 mil no ano, a caminho de reprisar 2009, quando 112,5 mil vagas foram decepadas. Quem continua empregado tem justa causa para inquietação. Não raro saberá de alguém que foi demitido e desocupado está.

E, se não souber, será informado pelos telejornais. O que terá a lhe dizer a candidata? Que tudo não passa de um surto transitório de "expectativas negativas" a desestimular o investimento, enquanto a alta dos preços já fura o limite superior da meta, passando dos 6,5% ao ano? Não é por "torcida contra" - que o Planalto, tomado de paranoia, parece enxergar por toda parte - que o índice de confiança do consumidor brasileiro é o mais raso dos últimos 11 anos. A aflição que a presidente talvez não revele a ninguém é que desempregados e desconfiados também votam. Com o tempo e a persistência da virtual estagnação econômica, esses contingentes tenderão a aumentar - assim como a possibilidade de voltarem os seus votos contra Dilma.

A defesa inspirada nos feitos imaginários do Barão de Münchausen a que Dilma se agarra poderá se revelar mais porosa que a da seleção brasileira no jogo com a Alemanha. Além de acusar bisonhamente os adversários de serem "aves de mau agouro", ela argumenta que o emprego, a inflação e os juros nos últimos anos foram melhores do que nos tempos do PSDB. Maltratando os números, a presidente soma ao seu mandato os oito anos de Lula para se achegar à sua popularidade. É um desrespeito à inteligência do eleitor: é supor que ele se apegue a melhoras passadas para exorcizar as pioras presentes.

Não obstante as nuvens que vão se adensando - e apesar dos 36% do eleitorado que diz que não votará nela em hipótese alguma -, a presidente continuará a ser uma candidata temível. A pesquisa Ibope/Estado/TV Globo publicada ontem revela uma situação de estabilidade, com Dilma pouco aquém dos 40% e Aécio pouco além dos 20%. Já nas simulações de segundo turno, a sua vantagem (41% a 33%) encolheu, sinal de que ela praticamente não agrega eleitores que preferiram outros nomes, ou nenhum, no primeiro turno. E subiu de 64% para 70% a parcela dos brasileiros que querem mudanças na condução do País.

A petista, em suma, precisa liquidar a fatura na rodada inicial. Mas é duvidoso que obtenha então a metade mais um dos votos válidos. Nem Lula conseguiu isso nas duas vezes em que ganhou a Presidência.

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