Emprego, retomada e desafios

A sustentação do crescimento econômico e da criação de empregos dependerá crucialmente, nos próximos 12 meses, de políticos à altura de sua responsabilidade

O Estado de S.Paulo

24 Novembro 2017 | 03h06

A criação de 76 mil empregos formais em outubro, o melhor resultado para o mês em quatro anos, é mais uma confirmação da retomada da economia, apontada também pela evolução do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) até setembro. A expectativa de boas vendas no fim de ano foi certamente um estímulo a mais para a abertura de vagas no comércio e na indústria, mas os números apontam mais que um fator sazonal. Saldo positivo no emprego com carteira assinada por sete meses consecutivos, sempre melhores que os do ano anterior, mostram claramente um impulso de recuperação dos negócios. Essa tendência tem sido indicada também por dados parciais da produção industrial e das vendas no varejo, refletidos no avanço do IBC-Br, uma antecipação das contas oficiais do Produto Interno Bruto (PIB).

Em setembro o indicador do BC foi 0,40% mais alto que em agosto e 2% superior ao de um ano antes, pela série livre de efeitos sazonais. A evolução trimestral mostrou ainda mais claramente a tendência positiva. De julho a setembro a atividade média foi 0,58% superior à dos três meses anteriores.

Além disso, pela primeira vez depois de 2013 o índice cresceu por três trimestres consecutivos. Nos dois primeiros trimestres deste ano as taxas de crescimento foram 1,1% e 0,39%. Os próximos dados do PIB, com divulgação prevista para dezembro, vão quase certamente confirmar essa trajetória de recuperação.

No acumulado de 12 meses a variação do IBC-Br continuou negativa: -0,42% na série livre de efeitos sazonais e –0,65% na série sem correção. Mas o resultado de nove meses foi 0,61% superior ao acumulado um ano antes, na primeira série, e 0,43% na outra. Esses dados suportam as expectativas de expansão pelo menos igual a 0,5% neste ano – provavelmente acima dessa taxa. O PIB crescerá 0,73% em 2017, se estiver correta a mediana das projeções do mercado contida no relatório Focus divulgado pelo BC na segunda-feira passada. Para o próximo ano as estimativas coletadas na mesma pesquisa apontam avanço de 2,51%. Para 2019, de 2,63%.

Essas projeções, assim como aquelas produzidas por entidades internacionais, têm sido elaboradas com base em expectativas de aprovação da reforma da Previdência e de continuidade do programa de correção das finanças públicas. Esses pressupostos também são importantes para as estimativas de inflação abaixo de 4% neste ano e pouco acima desse número nos dois anos seguintes, mas sempre dentro do limite fixado na política oficial. Também as apostas em juros básicos de 7% em 2018 e 8% em 2019 dependem da concretização das hipóteses sobre a gestão das contas públicas e sobre a inflação.

A imagem de um Papai Noel mais carregado de presentes em 2017 resulta do mesmo conjunto de expectativas e, é claro, da evolução positiva da economia ao longo deste ano.

Disseminada tanto no comércio e na indústria como no mercado financeiro, a confiança na recuperação da economia, a partir do conserto de seus fundamentos, sustenta o aumento das contratações de fim de ano, as maiores depois de 2013, e a aposta no fortalecimento econômico nos dois anos seguintes. Se a confiança se mantiver, o setor privado aumentará o investimento na capacidade produtiva.

A compra de mais equipamentos e máquinas dará um impulso a mais à atividade econômica, nos próximos dois anos, e criará condições para um avanço mais vigoroso e seguro por um prazo mais longo. Já há sinais de um começo de retomada desses investimentos. Mas a construção, também necessária para o aumento da capacidade produtiva, continua retraída e sem contribuir para o emprego.

Decisões políticas erradas, muito comuns em anos de eleições, poderão derrubar esse edifício baseado na confiança. A sustentação do crescimento econômico e da criação de empregos dependerá crucialmente, nos próximos 12 meses, de políticos – em todos os segmentos de poder – à altura de sua responsabilidade. No mínimo, dependerá da existência de um número razoável de políticos capazes de entender e de cumprir sua função pública.

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