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Empregos sem qualidade

O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2014 | 02h 05

O mundo está em crise. Não o Brasil. Quem garante é o ministro do Trabalho, Manoel Dias. "Vamos continuar gerando emprego", disse ele ao anunciar a abertura de 1,49 milhão de postos de trabalho com registro formal no ano passado. Os números de 2013 aparecem na Relação Anual de Informações Sociais (Rais). Mais de um quarto desse pessoal - 402,97 mil, ou 27% - foi contratado pela administração pública. A indústria de transformação acrescentou apenas 144,4 mil trabalhadores aos seus quadros. Isso corresponde a menos de um décimo de todas as novas contratações. Mas o ministro parece considerar pouco relevante esse detalhe. Se há uma crise, está fora, segundo ele, das fronteiras do Brasil.

É uma estranha prosperidade. Segundo os dados já disponíveis, a economia brasileira cresceu quase nada, se tiver crescido, no primeiro semestre, e economistas do setor privado estimam para o ano uma expansão inferior a 1%. Mas o Brasil visto de Brasília é quase sempre muito diferente do País conhecido no resto do território nacional.

O setor público brasileiro jamais diminuiu seus quadros nos últimos seis anos, desde o começo da recessão iniciada com o estouro da bolha financeira. O normal, em todos os níveis do governo, é o aumento das contratações. Em condições excepcionais, os quadros podem manter-se constantes, mas sempre por um período muito curto. Pode até haver adiamento de contratações, mas não corte de pessoal. Nos países mais adiantados a prática tem sido bem diferente.

Nos Estados Unidos, o nível total de emprego vem crescendo há alguns anos. O número total de empregados fora do setor rural diminuiu de 137,07 milhões em setembro de 2008 para 130,51 milhões em setembro de 2009. Em seguida veio a recuperação, a princípio lenta, depois mais rápida. Em setembro de 2013 já se havia recomposto o número de cinco anos antes. A recuperação foi garantida pelo setor privado. Em todo o setor governo, o total de empregados diminuiu, nesses anos, de 22,29 milhões para 21,75 milhões. São dados do Departamento do Trabalho.

A economia americana cresceu 1,9% no ano passado. Deve crescer 1,7% neste ano e 3% no próximo, segundo as contas do Fundo Monetário Internacional (FMI). O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro aumentou 2,5% em 2013 e deve expandir-se 1,3% em 2014 e 2% em 2015, também pelas projeções do FMI. Economistas brasileiros projetam resultados piores para o Brasil neste ano e no seguinte. Além disso, a inflação americana continua abaixo de 2% ao ano. A brasileira, próxima de 6%. Nos Estados Unidos, a taxa de desemprego era de 6,2% em julho. No Brasil, em junho, os desempregados eram 4,1% em Belo Horizonte, 5,3% no Rio de Janeiro, 6,5% no Recife e 6,6% em São Paulo. A greve dos funcionários do IBGE impediu a divulgação dos números das seis áreas metropolitanas cobertas pela pesquisa mensal. De toda forma, a comparação com os dados americanos, muito mais amplos, seria imperfeita. Mas os dados mostram: desemprego talvez pouco menor que o americano, economia menos dinâmica e inflação muito maior.

Em julho, segundo o Ministério do Trabalho, foram criados 11.796 empregos formais. Desde 1999 foi o pior resultado para o mês. Segundo o ministro, a geração de empregos chegou ao fundo do poço, mas, ainda assim, o Brasil é campeão na abertura de postos e os números vão melhorar. Talvez ele devesse levar em conta a qualidade dos empregos. Não é difícil de adivinhar se a produtividade média dos 402,97 mil trabalhadores contratados pelo setor governo é alta ou baixa. Nos serviços foram contratados 558,63 mil. São, na maior parte, funções de qualificação limitada e produtividade baixa.

Boa parte dos empregos oferecidos no Brasil tem sido compatível com uma política baseada mais no estímulo ao consumo do que na busca de eficiência. O crédito e a renda proporcionados por esses empregos são componentes importantes de um cenário marcado pela estagnação da indústria. Mas o Brasil vai bem e o mundo vai mal, segundo o governo.

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