Enfim, a compra dos caças

O grande mérito da presidente Dilma Rousseff ao tomar a decisão sobre o modelo e o país de origem dos caças de combate e interceptação destinados ao reequipamento da Força Aérea Brasileira (FAB) foi escrever o epílogo de uma história que se arrastava havia 12 anos - ou duas décadas, conforme o momento que se prefira para começar a contá-la. Já não era sem tempo, literalmente. Hoje, a Aeronáutica decreta a aposentadoria por invalidez dos 12 caças Mirage 2000 responsáveis pela proteção dos céus de Brasília. O seu último voo está marcado para a meia-noite do último dia do ano.

O Estado de S.Paulo

20 Dezembro 2013 | 02h07

A nova frota de 36 aparelhos a serem produzidos pela sueca Saab, presumivelmente com alguma parceria com o Brasil - os Gripens NG (New Generation) -, só começará a ser integrada à FAB em algum momento de 2018, se for cumprido o prazo de 48 meses depois da assinatura do contrato, a ocorrer, por sua vez, em algum momento do ano que vem. E só em 2023 a compra se concluirá. Ciente do intervalo entre os velhos que se vão e os novos ainda por chegar, o governo pretende apressar o processo. Com 10 ou 12 aviões incorporados a cada ano, a transação se consumará em 2021. De qualquer modo, o Brasil só assinará o primeiro cheque depois de receber a última unidade.

O preço - da ordem de US$ 4,5 bilhões - foi um dos fatores levados em conta pelo Planalto para preferir o produto sueco aos concorrentes Rafale F3, da francesa Dassault (US$ 8 bilhões), e Boeing F-18 Super Hornet, da Boeing (US$ 7,5 bi). A proposta da Saab era vantajosa mesmo se mantivesse o valor inicial de US$ 6 bi. O negócio abrange, além dos caças, suporte logístico e treinamento dos pilotos. Ao anunciar a escolha, o ministro da Defesa, Celso Amorim, citou, além do custo, o desempenho da família Gripen e o compromisso do vendedor, a ser detalhado no contrato, de transferir tecnologia. O comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, assegura que 80% de toda a estrutura (dos aparelhos) será fabricada no País, envolvendo 15 empresas.

Desempenho e coparticipação são coisas diferentes. Desempenho conhecido e aprovado é o do Gripen C/D, cujas 235 unidades operam na Suécia, Suíça, Hungria, República Checa, Tailândia e, só para treinamento, no Reino Unido. O sucessor, por enquanto, é um "protótipo conceitual", como diz Amorim, com 360 horas de voo. Já a transferência de tecnologia, se bem que favorecida pelo estágio em que o caça ainda se encontra, dificilmente deixará de enfrentar turbulências. Uma delas é o fato de os Estados Unidos deterem as patentes de vários componentes do avião. Amorim garante, porém, que uma das partes mais sensíveis - a abertura do código-fonte do sistema de armas - será 100% nacional.

Existe um precedente no setor. O acordo da Embraer com os produtores italianos do AMX, na década de 1980, foi tão bem-sucedido a ponto de transformar a empresa do Vale do Paraíba em líder mundial no segmento de jatos para até 120 passageiros e fabricante da aeronave de ataque leve e treinamento, o Super Tucano. Mas a preferência pelo Gripen - como acontece em toda parte em decisões do gênero - foi essencialmente política. Se dependesse do então presidente Lula, o Brasil teria fechado um pacotaço de defesa com a França a partir da compra do Rafale. Ele se rendeu, porém, ao veto da Aeronáutica, pró-Gripen. Já se dependesse de Dilma, apesar da posição da FAB, a vitoriosa seria a Boeing.

A compra, que consagraria o processo de reaproximação com os EUA por ela iniciado para superar as tensões no relacionamento bilateral dos anos Lula, tinha até data e local para ser anunciada. Seria em Washington, no dia 23 de outubro passado, por ocasião de sua visita de Estado aos EUA. A repercussão, evidentemente, seria global. A revelação de que ela, pessoalmente, também foi espionada pela Agência de Segurança Nacional americana derrubou a viagem e tornou politicamente inviável levar adiante o acerto com a Boeing. Nem por isso a hipótese Rafale voltou a ser considerada, como o presidente François Hollande ficou sabendo pela própria Dilma. Por exclusão, enfim, deu-se a escolha.

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