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Enfim, põe-se fim à leniência

O Estado de S.Paulo

27 Junho 2014 | 02h 05

O estudante de jornalismo e funcionário da Universidade de São Paulo (USP) Fábio Hideki Harano, de 26 anos, e o professor Rafael Marques Lusvarghi, de 29, primeiros black blocs presos em flagrante pela Polícia Civil paulista, foram indiciados por associação criminosa. "É a resposta da lei para esses indivíduos", afirmou o secretário de Segurança Pública de São Paulo, Fernando Grella. Já não era sem tempo: desde junho de 2013, quando a população ocupou as ruas de inúmeras cidades protestando contra a péssima gestão do Estado em áreas capitais para o cidadão, como educação, saúde, transporte e segurança, anarquistas, muitos dos quais mascarados, vinham se aproveitando impunemente da leniência das autoridades para promoverem quebra-quebras depois de manifestações pacíficas.

De acordo com Grella, os dois, presos durante ato contra a Copa do Mundo no centro de São Paulo na segunda-feira, estavam "incitando os manifestantes contra os policiais e foi necessária uma ação para conter os atos de violência".

Ao anunciar o endurecimento contra vândalos que depredam edifícios públicos, lojas particulares, automóveis e outros bens que encontram pela frente nos protestos de rua, o secretário voltou a classificar como "um equívoco" a passividade da Polícia Militar (PM) numa manifestação ocorrida na semana passada. Naquela ocasião, os policiais não conseguiram agir na hora para impedir o quebra-quebra porque não acompanhavam de perto a manifestação para cumprir acordo com o Movimento Passe Livre (MPL), cujos líderes garantiram por escrito que não haveria vandalismo se o policiamento ficasse a distância dos manifestantes. Grella garantiu que isso "não vai se repetir". No lançamento do programa para reforço da segurança nas escolas estaduais pela PM, o próprio governador deu seu aval ao endurecimento, elogiando a ação policial que resultou na prisão dos dois manifestantes e censurando de maneira indireta a inércia policial na semana passada. "Foi positivo, tanto é que não houve incidente. A polícia tem o dever de agir", disse Geraldo Alckmin.

Na ação elogiada pelo governador, Harano e Lusvarghi foram presos por policiais civis do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic). Técnico-administrativo na farmácia do Centro de Saúde Escola Samuel Pessoa da Faculdade de Medicina da USP há dois anos, estudante na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da mesma universidade pública e apontado pelos policiais como líder dos manifestantes, Harano foi abordado na Estação Consolação do Metrô, quando, conforme a polícia, praticava atos de vandalismo com máscaras de gás, coquetel molotov e capacete. Lusvarghi, que se diz professor de inglês e assistente de help desk, além de ter sido da PM paulista durante dois anos, de ter cursado a Academia da PM do Pará e de haver pertencido à Legião Estrangeira, foi detido no momento em que um policial do Deic teria sido atacado por 20 ativistas. De acordo com a polícia, esse agente foi obrigado a atirar para o alto para não ser agredido.

A advogada Tatiana Tibério Luz negou as informações dos policiais garantindo que o professor "não estava mascarado". Segundo ela, "ele estava andando com um colega polonês quando três homens não fardados começaram a bater nele". O advogado Luis Rodrigues da Silva garantiu que o artefato que os policiais do Deic disseram ter encontrado com o funcionário e estudante da USP foi "plantado".

É legítimo que acusados por agentes da lei se defendam das acusações. Cabe ao Estado exibir as provas de que eles cometeram os delitos de que são acusados. As autoridades estaduais agem bem ao convocarem à força membros do MPL que se recusam a depor, como decidiram fazer agora. Todos têm direito a expressar suas opiniões, mesmo que sejam utópicas, como é o caso desse grupo que reivindica tarifa zero para o transporte público. Mas o fato de se pretenderem politicamente corretos não os libera para violar a ordem pública nem para depredar o patrimônio público ou privado.

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