Engodo olímpico

O mesmo documento que aponta o rombo de R$ 132 milhões, almejando que o dinheiro público brasileiro seja usado para cobrir o déficit, faz menção aos pagamentos de oito diretores executivos do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos. Entre 2011 e 2016, eles receberam, entre salários e pagamentos adicionais, R$ 33,2 milhões

O Estado de S.Paulo

19 Maio 2017 | 03h01

Quando a cidade do Rio de Janeiro foi escolhida para sediar os Jogos Olímpicos de 2016, vendeu-se a ideia de que a população podia ficar tranquila. O evento esportivo seria custeado com dinheiro privado, cabendo ao poder público tão somente os investimentos em infraestrutura, especialmente no setor de transportes. Depois, dizia o discurso oficial, todo esse conjunto de investimentos seria convertido em inúmeros benefícios para a população. Não haveria apenas uma grande festa esportiva. A cidade do Rio de Janeiro receberia um proveitoso legado olímpico, diziam os otimistas organizadores.

Agora, menos de um ano após a realização dos jogos, a bonita história da Olimpíada como evento privado foi abandonada e os executivos da empresa organizadora tentam amealhar dinheiro público para cobrir suas dívidas, relata o repórter Jamil Chade, do Estado. As informações baseiam-se num documento da entidade, aprovado por seus diretores em fevereiro de 2017.

Segundo o informe, o evento no Rio foi deficitário, constando, em 31 de dezembro de 2016, um rombo de R$ 132 milhões. Em vez de assumirem o prejuízo, os executivos querem ajuda pública para cobrir o rombo, alegando que o déficit gerado é culpa da prefeitura do Rio de Janeiro e do governo federal.

Numa completa mudança de discurso, a entidade diz que os “subsídios” dos três níveis de governo eram “essenciais para o equilíbrio orçamentário da entidade (Comitê Rio-2016) e principalmente para garantir a inexistência de déficit, uma vez que desde a candidatura do Rio já se estimava que as receitas próprias do Rio-2016 não seriam suficientes para suportar todas as despesas necessárias para a organização dos Jogos”.

Alegam ainda que, em 10 de fevereiro de 2015, foi assinado entre o Comitê Rio-2016 e a prefeitura carioca um acordo que estabelecia a “obrigação de adquirir bens e serviços de infraestrutura necessários para o funcionamento do Centro Internacional de Transmissão (CIT), em contrapartida à transferência para a prefeitura de parte dos custos com energia temporários, em igual valor”, o que não teria sido cumprido pela administração da cidade.

Além do alegado descumprimento das obrigações por parte do poder público, obrigações estas nunca claramente reveladas – era sempre dito que se tratava de um evento privado e que haveria dinheiro público apenas para as obras externas –, o documento relata ainda outras causas para a situação deficitária do evento. “No primeiro semestre do ano passado, diversos fatores externos começaram a impactar diretamente na venda de ingressos, acomodações, hospitalidade, patrocínios entre outras fontes de receitas do comitê”, aponta o informe. “Os principais fatores que afetaram a receita foram: crise econômica do País, instabilidade política e surto de zika. Ademais, havia uma baixa procura de ingressos paralímpicos e patrocínios”, dizem agora os organizadores.

Ora, tudo isso faz parte do risco inerente a qualquer atividade empresarial, que pode resultar em lucro ou prejuízo. Foram inúmeras as ocasiões em que o Comitê Rio-2016 afirmou se tratar de um evento privado. Menos de um ano antes da Olimpíada, por exemplo, a organização alardeava que iria movimentar R$ 1 bilhão com produtos licenciados e que o seu orçamento de R$ 7,4 bilhões era composto exclusivamente de recursos privados. É bem estranha, portanto, a tentativa de dizer agora que o contribuinte brasileiro precisa cobrir o rombo do evento.

Nem todas as contas da Olimpíada, porém, foram negativas. O mesmo documento que aponta o rombo de R$ 132 milhões, almejando que o dinheiro público brasileiro seja usado para cobrir o déficit, faz menção aos pagamentos de oito diretores executivos do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos. Entre 2011 e 2016, eles receberam, entre salários e pagamentos adicionais, R$ 33,2 milhões, diz o documento. Certamente, legado não faltou para essa gente.

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