Enquanto isso, na economia

Enquanto a crise política paralisa o governo, acumulam-se as más notícias da economia e pioram as expectativas em relação aos negócios e à evolução das contas públicas. A atividade industrial continua fraca e as previsões para os próximos seis meses permanecem muito ruins, segundo a sondagem divulgada na quinta-feira passada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). O pouco entusiasmo dos empresários combina com a baixa disposição de compra indicada pelos consumidores em pesquisa da Confederação Nacional do Comércio e com o aumento das demissões nas fábricas. Segundo a sondagem da CNI, a produção continuou a diminuir em fevereiro, embora o ritmo de queda deva ter sido menos intenso que no mês anterior. Este é um dos poucos dados positivos do relatório. O indicador de produção baseado na avaliação dos entrevistados passou de 39,7 pontos em janeiro para 42,2 no mês seguinte.

O Estado de S.Paulo

19 Março 2016 | 03h00

Mas a melhora estatística, nesse caso, pode ser enganadora à primeira vista, porque o número ficou abaixo de 50. Só acima deste nível as avaliações apontam uma percepção favorável. Abaixo disso, índices maiores que os da pesquisa anterior denotam simplesmente uma piora menos acentuada e, na melhor das hipóteses, uma tendência à estabilização.

O emprego também caiu menos que no mês anterior, de acordo com a sondagem. Além disso, em março as expectativas quanto à evolução do mercado, às contratações de pessoal e às compras de matérias-primas também melhoraram, ou, mais precisamente, ficaram menos negativas. A expectativa de demanda, por exemplo, chegou a 46,9 pontos.

Mas a aposta mais otimista, correspondente a 52,6 pontos, foi relativa ao crescimento do volume exportado. Em janeiro, o índice era mais alto – 53,5 pontos. De toda forma, a previsão ainda é de crescimento.

Em fevereiro, o uso da capacidade instalada permaneceu em 62%, o nível mais baixo desde 2011. Haverá, portanto, muita capacidade disponível antes de serem necessários novos investimentos em máquinas, equipamentos e instalações.

O governo deveria levar em conta esse dado ao formular qualquer estratégia de reativação econômica. Crédito mais abundante e mais barato deverá produzir pouco efeito enquanto houver muita capacidade ociosa e houver muita insegurança quanto à política econômica. Essa insegurança provavelmente continuará elevada enquanto o cenário político for nebuloso e o governo se mostrar incapaz de indicar um rumo mais ou menos seguro para a economia.

Para definir esse rumo, a administração federal terá de formular uma estratégia exequível e confiável de arrumação de suas contas e de controle da dívida pública. Uma estratégia baseada principalmente na disciplina do gasto será com certeza mais convincente que um programa de ajuste sustentado em maior tributação.

Apesar de algum otimismo em relação às vendas externas, poucas indústrias estarão preparadas para avançar nesse rumo nos próximos meses. Muitas têm pouca experiência de comércio exterior. Outras perderam espaço no mercado exterior nos últimos anos e terão de reconquistar clientes. Mas o esforço de exportação pode valer a pena, especialmente porque pouco se pode esperar do mercado interno em 2016. Segundo a Confederação Nacional do Comércio, a intenção de compra dos consumidores voltou a diminuir. O nível indicado pela sondagem foi em março 1,6% inferior ao de fevereiro e 29,9% mais baixo que o de um ano antes. Juros, inflação e renda em queda compõem parte da explicação.

A perda de renda é, em boa parte, associada ao desemprego, especialmente grave no setor industrial. Em fevereiro, as fábricas paulistas fecharam mais 12 mil postos, segundo a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). No ano, 27 mil vagas foram perdidas. No mês passado, o nível de emprego foi 10,18% inferior ao de fevereiro do ano anterior. Pela primeira vez essa comparação indicou uma queda superior a 10%. Um governo sem rumo dificilmente dará uma resposta a esse problema.

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