Episódio que exige atenção

A invasão do plenário da Câmara dos Deputados por um bando de desordeiros é extremamente grave e preocupante, não apenas por constituir grave ofensa a um dos Poderes da República mas também pela probabilidade de tratar-se de um primeiro movimento de um grupo extremista contra o sistema democrático brasileiro

O Estado de S.Paulo

18 Novembro 2016 | 03h54

O episódio da invasão do plenário da Câmara dos Deputados por um bando de desordeiros na tarde da quarta-feira passada é extremamente grave e preocupante, não apenas por constituir grave ofensa a um dos Poderes da República – crime capitulado em lei – mas também pela probabilidade de tratar-se de um primeiro movimento de um grupo extremista contra o sistema democrático brasileiro. É necessário, portanto, que esse atentado seja rigorosamente investigado pela polícia e pelo aparato de segurança institucional, identificando-se assim os criminosos por trás dessa ação e os seus verdadeiros objetivos.

O Brasil vive um período compreensivelmente turbulento de transição entre o desastre político, econômico, social e moral que resultou da era lulopetista e o saneamento das contas públicas como pré-requisito para a retomada do crescimento econômico. É um momento de incertezas e insegurança para a população, principalmente para os segmentos menos informados, naturalmente mais suscetíveis de reagir a apelos emocionais de que lançam mão radicais interessados na desestabilização institucional.

De um lado, há quem se preocupe em sabotar qualquer possibilidade de êxito de um governo que, pelas circunstâncias, foi construído às pressas e nem sempre sobre alicerces sólidos. A oposição, liderada pelo PT, chega ao descaramento de responsabilizar o governo Michel Temer por todos os problemas que infelicitam o povo brasileiro. Mas a resposta dos eleitores a Lula e seus sequazes já foi dada nas urnas. Foram solenemente rejeitados.

No espectro ideológico oposto, há quem queira se aproveitar da insatisfação geral que advém da crise econômica e social para ganhar voz ativa no cenário político.

Venha de onde vier, a baderna promovida quarta-feira na Câmara dos Deputados, interrompendo a sessão em andamento depois de destruir a porta de vidro do plenário e agredir agentes de segurança da Casa, foi uma demonstração chocante do ponto a que pode chegar a estupidez humana. Sob o argumento de que tinham o “direito” de entrar na Casa do Povo, meia centena de celerados ocuparam a Mesa para berrar palavras de ordem absurdas como “intervenção militar já” e “um general aqui”.

As poucas informações até agora reunidas sobre a origem e a identidade do grupo de baderneiros – a maior parte, de meia-idade – dão conta de que chegaram a Brasília procedentes de vários Estados e teriam planejado a tresloucada aventura por meio das redes sociais. Ninguém se apresentou nem foi apontado como líder do movimento. E durante as três horas em que ocuparam o plenário exigindo a presença do presidente Michel Temer ou de “um general, qualquer um”, dedicaram-se a sapatear em cima da Mesa e gritar palavras de ordem às vezes conflitantes.

É óbvio que uma manifestação como essa não teve geração espontânea. Dependeu de um mínimo de logística para colocar meia centena de pessoas ao mesmo tempo no mesmo lugar e de um certo planejamento para o ato de invasão do plenário. Basta ver como ocorreram os fatos lamentáveis para se chegar a essa conclusão.

Todos os baderneiros, que chegaram à Câmara em pequenos grupos, identificaram-se normalmente na entrada e depois se dirigiram, separadamente, ao Salão Verde, de onde se tem acesso ao plenário. De repente, dirigiram-se correndo, todos juntos, à porta de vidro, que foi estilhaçada, e ingressaram no plenário como vândalos, aos gritos. Alguns tentaram retirar da Mesa, à força, o vice-presidente da Casa, deputado Waldir Maranhão (PP-MA), que dirigia os trabalhos.

Até para evitar que esse lamentável episódio se transforme em exemplo e estímulo para baderneiros de diversas extrações, impõe-se uma rápida e profunda investigação do episódio, com a rigorosa punição dos responsáveis. É assim que se faz numa democracia.

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