Erros à moda da casa

Se o desempenho brasileiro continuar superior ao previsto, ainda será muito modesto, especialmente se comparado ao de outros países emergentes

O Estado de S.Paulo

23 Abril 2018 | 03h00

A maior ameaça ao crescimento brasileiro é made in Brazil, a julgar pela avaliação do Fundo Monetário Internacional (FMI). A economia do País deve crescer 2,3% neste ano e 2,5% no próximo, mas perderá impulso e ficará emperrada, a médio prazo, em torno de 2,2%. Baixa produtividade será um obstáculo. Essa deficiência afetará também países desenvolvidos, mas em relação ao Brasil esse problema vem sendo apontado há vários anos. Outros fatores, como conflitos comerciais e turbulências financeiras, podem comprometer a prosperidade global e também a brasileira, segundo o Panorama Econômico Mundial divulgado nesta semana. Mas em matéria de entraves os brasileiros são autossuficientes. Não precisam de choques importados, mas, de toda forma, pouco se preparam para enfrentá-los.

Os economistas do FMI subestimaram, em suas projeções, o crescimento do Brasil no ano passado. Há um ano, estimaram expansão de 0,7% em 2017 e 1,7% em 2018. Erraram, reviram seus cálculos para este ano e para o próximo e talvez errem de novo. Mas, se o desempenho brasileiro continuar superior ao previsto até 2019, ainda será muito modesto, especialmente se comparado ao de outros países emergentes.

Quanto a um ponto a avaliação dos técnicos do Fundo tem sido incontestável e assim permanece: o potencial produtivo da economia brasileira é muito baixo. Mesmo os segmentos mais produtivos, como a agropecuária e algumas áreas da indústria, são afetados por limites severos e dificilmente compensáveis.

Esses limites têm sido apontados em estudos sérios sobre competitividade: infraestrutura deficiente, excesso de burocracia pública, insegurança jurídica, tributação pesada sobre a produção e o investimento, dificuldade de cumprimento das obrigações fiscais, elevado custo da segurança e, é claro, escassez de capital humano.

Governo e setor privado têm investido muito menos que o necessário para ganhos significativos de eficiência. A educação tem sido desastrosa. O acesso à educação básica foi ampliado estatisticamente, mas com resultados muito abaixo de medíocres. A indústria há muito tempo denuncia a baixa oferta de mão de obra qualificada ou – pior – meramente qualificável no ambiente de trabalho.

Ampliou-se o acesso a faculdades, mas com pouca ou nenhuma atenção à qualidade do ensino. Além disso, faltou cuidar decentemente dos cursos médios e da formação profissionalizante. Alguma atenção à experiência das economias emergentes mais dinâmicas poderia ter sido muito útil, mas houve mais preocupação, especialmente no longo período petista, com a democratização dos diplomas do que com a distribuição de competências. A fraqueza da educação brasileira tem sido evidenciada, regularmente, em testes internacionais, como o Pisa. Os estudantes brasileiros têm ficado nas faixas mais modestas de classificação.

Se o dinamismo da economia dependesse apenas do investimento em capital físico, isto é, em máquinas, equipamentos e obras, ainda assim o Brasil estaria em posição de inferioridade. Esse tipo de investimento tem oscilado entre 17% e 20% do Produto Interno Bruto (PIB). Durante anos o governo manteve o compromisso de chegar a 24%, mas o resultado sempre ficou longe dessa meta. Mesmo que essa proporção fosse alcançada, o País ainda investiria menos que os emergentes mais dinâmicos.

A todas essas deficiências ainda é preciso acrescentar a má seleção e a péssima execução dos investimentos ligados ao setor público. O crescimento econômico depende tanto do volume como da produtividade do capital formado com essas aplicações. Quanto ao setor privado, também investe muito menos que o necessário, embora possa apresentar resultados melhores que os do setor público. O custo do capital pode ser um dos obstáculos, mas isso conta apenas uma parte da história. Num país com alto protecionismo e generosa distribuição de favores a setores e grupos selecionados, para que investir em produtividade e inovação?

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