Escolas de civismo

Os Tiros de Guerra, como informa o Exército em seu portal eletrônico, são uma experiência bem-sucedida entre o Exército Brasileiro e a sociedade

O Estado de S.Paulo

19 Novembro 2017 | 03h00

Por seu papel na preparação de jovens, sobretudo das localidades distantes das capitais dos Estados, os Tiros de Guerra se tornaram importantes centros de educação, civismo e cidadania. Com uma história mais do que centenária e com uma atuação cuja importância é reconhecida nas localidades em que atuam, essas instituições que simbolizam o acerto da parceria do poder político municipal com uma instituição nacional como o Exército não estão, porém, tão disseminadas pelo País quanto seria desejável. Dos 5.570 municípios brasileiros, mais de 800 têm mais de 40 mil habitantes, população suficiente para justificar a existência de uma unidade de formação e treinamento de cidadãos, mas há pouco mais de 220 Tiros de Guerra em todo o País.

Os que estão em operação continuam a cumprir bem sua função já centenária de formar reservistas para o Exército Brasileiro e instilar nos jovens, além das lições de disciplina, o espírito de camaradagem e cooperação, como mostrou reportagem de José Maria Tomazela publicada no Estado há dias. “A disciplina, a responsabilidade e o tratamento igual para todos que aprendem aqui servem para a vida que vão levar como operário, professor, político ou empresário”, disse o subtenente Jailson Cordeiro da Silva, de 46 anos, que desde dezembro do ano passado é responsável pelo Tiro de Guerra de Capivari. Trata-se de um município paulista de porte médio, que tem pouco mais de 54 mil habitantes, de acordo com dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Criados no início do século passado com o nome de “linhas de tiro”, sociedades de tiro ao alvo com finalidades militares, os Tiros de Guerra tiveram seu papel impulsionado pela pregação do poeta Olavo Bilac. Entre 1915 e 1916, com o apoio do jornal O Estado de S. Paulo, Bilac liderou a campanha pelo serviço militar obrigatório.

Os Tiros de Guerra, como informa o Exército em seu portal eletrônico, são uma experiência bem-sucedida entre o Exército Brasileiro e a sociedade. A parceria é estabelecida por meio de convênios entre a prefeitura e o Exército e existe há 115 anos. Os Tiros de Guerra “permitem, de forma inteligente e econômica, proporcionar a milhares de jovens brasileiros, principalmente os que residem em cidades do interior do País, a oportunidade de atenderem à lei e de prestarem o serviço militar inicial”.

Essa modalidade de prestação de serviço militar permite que o atirador – como é chamado o integrante do Tiro de Guerra – concilie o serviço militar com sua vida cotidiana, sem a necessidade de interromper sua rotina de trabalho, estudo ou convívio familiar.

Como mostrou a reportagem, os futuros reservistas do Exército se apresentam às 6 horas e cumprem atividades até as 8 horas. Durante 40 semanas, recebem instruções militares, aulas de civismo e cidadania, noções de armamento e primeiros socorros. Recebem uniforme do Exército, que também é responsável pelo instrutor e por todo o equipamento. As instalações são de responsabilidade da administração municipal. Muitos saem dali melhores do que entraram, como observou o subtenente Jailson da Silva. Parte deles decide prosseguir na carreira militar.

Contrastes no início do serviço e o rompimento de eventuais barreiras econômicas ou sociais durante o período de treinamento e aprendizado nos Tiros de Guerra são frequentes. Dois casos relatados na reportagem citada mostram como origens sociais e geográficas muito distintas podem resultar em objetivos ou resultados comuns. Um filho de empresário que só se preocupava com seu lazer agora se diz realizado quando veste a farda e, por isso, pensa em cursar a escola preparatória de cadetes, em Campinas, para seguir a carreira militar. Um migrante que perdeu o emprego em uma fazenda na Bahia e veio para São Paulo também pretende continuar na carreira militar. Incorporados ao serviço militar obrigatório, ambos estão entre os líderes dos 50 atiradores do Tiro de Guerra de Capivari e sintetizam os valores que essas instituições transmitem.

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