Esperança e confiança

O brasileiro é capaz de superar as adversidades mesmo quando o quadro político é desfavorável

RUY MARTINS ALTENFELDER SILVA*, O Estado de S.Paulo

03 Novembro 2017 | 03h00

No dia 27 de setembro, em solenidade presidida pelo governador Geraldo Alckmin no Palácio dos Bandeirantes, a Fundação Bunge, pelo 62.º ano consecutivo, reuniu a comunidade para homenagear os ganhadores do tradicional prêmio destinado a incentivar o desenvolvimento das ciências, letras e artes. Este ano, dedicado às ciências agrárias, teve como ganhadores o ex-ministro da Agricultura e criador da Embrapa Alysson Paulinelli (categoria Vida e Obra) e Marcelo Loureiro Garcia (Juventude). A professora e jurista gaúcha Cláudia Lima Marques recebeu o prêmio na categoria Vida e Obra e o jovem Ivan Alberto Martins Hartmann, na categoria Juventude, na área das ciências humanas e sociais.

O clima de confiança e esperança, contrastando com o atual estado de descrença e desesperança do povo brasileiro, ficou evidente nas manifestações dos presentes. O brasileiro é capaz de superar adversidades mesmo quando o quadro político-institucional é desfavorável.

O Brasil é grande demais para ser tratado como uma curiosidade histórica ou imaginado como a terra incógnita dos mapas anteriores ao descobrimento. Sua diversidade cultural e econômica desafia a análise apressada ou preconceituosa.

Tom Jobim, autor da célebre canção Garota de Ipanema, costumava dizer que o Brasil não é para amadores.

O balanço da economia brasileira vem apresentando surpresas positivas. O que esses dados significam? Antes de mais nada, que a imagem do País jamais poderá ser ligada ao desânimo ou à derrota. Mesmo que uma parte do noticiário sobre as dificuldades brasileiras se justifique, é relevante destacar a importância da reação da sociedade diante desse quadro. O exercício da cidadania está dando frutos e multiplica os efeitos de uma infraestrutura que vem sendo penosamente construída ao longo de décadas.

As empresas estão mudando estratégias e com isso aumentando vendas e produtividade, gradativamente. A certificação ISO 9000, que começou timidamente, experimentou crescimento significativo. Hoje já existem centenas de grandes, médias e pequenas empresas brasileiras dentro desse padrão internacional de qualidade. Igualmente os padrões de governança estão se modernizando. Atingindo principalmente as pequenas indústrias, que estão sendo desafiadas a mudar para não morrer, esse trabalho produz reflexos positivos em toda a cadeia produtiva.

A livre-iniciativa no Brasil ganhou força nestes anos de crise continuada. Os empresários e a população em geral estão aprendendo a esperar menos do governo e a andar pelas próprias pernas. E o processo de terceirização, de início encarado por algumas lideranças sindicais como uma manobra para provocar mais desemprego, já é realidade positiva.

No Brasil com um mercado de mais de 200 milhões de habitantes e extensão territorial de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, ainda existem novas fronteiras a serem conquistadas. No Centro-Oeste, por exemplo, surgem novas cidades embaladas pela cultura intensiva de alimentos voltada especialmente para a exportaç ão. E os redutos de exploração dos trabalhadores estão sendo eliminados, enquanto se espraia por todo o País o respeito aos seus direitos, garantidos pela Constituição federal e ordenados pelos princípios da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

O Brasil contraria a imagem de nação atrasada e problemática. Só no Estado de São Paulo, que ocupa 3% do território nacional, o parque industrial se equipara ao da França.

São Paulo concentra mais de 30% de toda a demanda de consumo do País. É o Estado onde os trabalhadores auferem a maior média de rendimentos.

A iniciativa privada e a economia de mercado conquistaram o Brasil, apesar de a mentalidade retrógrada, cevada em séculos de dependência do Estado, ainda persistir em alguns segmentos. E a democracia brasileira conseguiu acordar o País para a necessidade da descentralização e da libertação das amarras seculares.

Nos últimos anos o Brasil mostrou ao mundo equilíbrio, decretando o impedimento de dois presidentes eleitos e afastando parlamentares e maus cidadãos que não vinham se comportando com ética e decência no trato da coisa pública. O mensalão e a Operação Lava Jato são exemplos positivos.

O ainda incompleto, processo de privatização das estatais tem ajudado a provar a correção desse caminho.

Todos esses dados, refletem o esforço interno de adequar o mercado brasileiro às exigências do mercado internacional. O Mercosul é uma zona de livre-comércio, mas seu projeto vai mais longe, pois supõe uma união aduaneira, com tarifas externas comuns e, num último estágio, um mercado comum onde haverá liberdade de movimentação de fatores de produção, como na União Europeia. Precisa ser aprimorado e desideologizado, notadamente agora que o Brasil exerce a sua presidência.

A sociedade procura solucionar seus problemas mais urgentes, como as reformas estruturais necessárias à dinamização de todo esse processo, principalmente a reforma previdenciária. O povo brasileiro, que ainda exibe indicadores sociais alarmantes, quer desenvolver-se e sua dura autocrítica em relação aos problemas internos acaba extrapolando para o exterior.

O crime organizado e a violência contra menores preocupam e estão sendo combatidos pelos poderes públicos e repudiados pela sociedade.

O Brasil é famoso pela sua diversidade cultural, pela sua natureza pacífica e bem-humorada. Esse é o Brasil que desafia a nossa análise e, apesar dos pontos negativos apontados, desperta esperança.

Esperança e confiança!

* RUY MARTINS ALTENFELDER SILVA É CURADOR DOS PRÊMIOS FUNDAÇÃO BUNGE, PRESIDENTE DO CONSELHO SUPERIOR DE ESTUDOS AVANÇADOS (FIESP-IRS) E DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS JURÍDICAS

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