Espinhos da 'Primavera Árabe'

O candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, Mitt Romney, trocou os pés pelas mãos ao tentar explicar o incidente que resultou na morte do embaixador americano na Líbia, Christopher Stevens, para ganhar votos. Nem comentaristas conservadores o pouparam por tirar conclusões críticas ao presidente Barack Obama antes mesmo de ter em mãos todas as informações sobre o caso. Tal leviandade pode lhe custar pontos preciosos numa corrida eleitoral tão acirrada. No entanto, o fato é que o governo Obama deu todos os sinais de que foi pego desprevenido, evidenciando um despreparo que parece fruto de uma visão excessivamente romântica da chamada "Primavera Árabe" e do papel dos americanos nela.

O Estado de S.Paulo

14 Setembro 2012 | 10h16

A crise que originou a tragédia começou quando circulou na internet um vídeo, feito por americanos, que mostra o profeta Maomé como um homossexual que abusa de crianças. As primeiras manifestações de protesto de muçulmanos ocorreram no Cairo - onde a Embaixada dos Estados Unidos foi invadida, sob os olhares complacentes da polícia. Os diplomatas americanos emitiram nota em que criticavam o vídeo, numa tentativa de acalmar os ânimos. Para Romney, a nota provava que o governo Obama preferia "simpatizar" com os agressores.

Horas mais tarde, aconteceu o ataque de manifestantes ao consulado americano em Benghazi, na Líbia. A secretária de Estado Hillary Clinton reagiu: "Hoje muitos americanos estão se perguntando, e eu me perguntei, como isso pôde ter acontecido em um país que nós ajudamos a libertar?". A declaração traduz a surpresa com o ataque e mal esconde a decepção da Casa Branca, em meio a seus esforços de aproximação com o mundo árabe e islâmico, empreendidos desde o início do governo de Obama.

Nesse aspecto, no entanto, a estratégia de Obama parece tão ineficaz quanto a retórica de seu antecessor, George W. Bush, que prometia salvar o mundo árabe pela mágica da democracia. No Paquistão, por exemplo, nem toda a bilionária ajuda dos Estados Unidos mudou a imagem negativa dos americanos. Ao contrário: em três anos, o porcentual de paquistaneses que veem os Estados Unidos como inimigos saltou de 64% para 74%, segundo pesquisa do Pew Research Center.

O fato é que o antiamericanismo entre árabes e muçulmanos do Oriente Médio e do norte da África resulta menos da indisposição popular contra este ou aquele presidente dos EUA e mais de um enraizado ódio ao Ocidente, alimentado pelo discurso de maus governantes interessados em desviar a atenção popular e de grupos político-religiosos empenhados em reafirmar sua disposição de enfrentar o "Grande Satã". Sendo assim, pode-se dizer que nada do que os americanos fizeram até aqui - quer em termos de ajuda econômica, quer ajudando rebeldes a derrubar ditadores - teve o poder de alterar significativamente o sentimento geral.

A morte de Stevens e o vandalismo contra a embaixada no Egito são, nesse aspecto, bastante significativos. Mesmo com as veementes e imediatas manifestações de pesar por parte do governo líbio, indicando apreço pelo trabalho dos americanos, o fato é que um diplomata ocidental foi brutalmente assassinado em Benghazi, sinalizando a fragilidade do novo regime líbio ante o desafio de construir um Estado livre e seguro onde floresce o ódio sectário.

No caso do Egito, onde já houve quatro ataques a embaixadas neste ano e onde o antiamericanismo é violento, a situação é ainda mais confusa e potencialmente mais perigosa. O presidente Mohammed Morsi levou um dia inteiro para se manifestar sobre a violência - e, quando o fez, foi apenas burocrático. Além disso, seu grupo político, a Irmandade Muçulmana, ignorou a diplomacia e convocou novos protestos. Como se trata de um elemento-chave na incipiente democratização da região, por seu tamanho e sua influência, o governo do Egito emite sinais evidentes de que busca se acomodar com os muçulmanos radicais em primeiro lugar. Tudo isso fortalece a sensação de que o otimismo gerado pela "Primavera Árabe" pode não passar de ingenuidade.

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