Essa tal felicidade - II

Dez anos atrás escrevi um artigo sobre felicidade, publicado no Estado em 17/3/2002. Volto ao assunto motivado por pesquisa da FGV, recém-divulgada, indicando que o "Brasil é tetracampeão em felicidade".

Roberto Teixeira da Costa, O Estado de S.Paulo

02 Abril 2012 | 03h05

Esse trabalho, em parceria com a Consultoria Gallup, entrevistou cerca de 200 mil pessoas em 158 países e indagou sobre a expectativa de felicidade nos próximos cinco anos e no momento atual. Saímos vencedores nos dois quesitos. Depois do Brasil aparecem Panamá, Costa Rica, Colômbia, Catar, Suíça e Dinamarca. Merece destaque os países da América Latina aparecerem muito bem situados. Certamente, a questão climática pode ser lembrada!

A pesquisa brasileira indicou (e é um fato novo) que as mulheres são mais felizes que os homens. Marcelo Neri, da FGV, atribui o resultado ao fato de as mulheres terem conquistado maior nível de educação nos últimos anos. Acredita que educação traz felicidade porque se traduz em renda e, consequentemente, em vida melhor. A partir de 1999 a média de educação feminina superou a dos homens. Entre 2001 e 2009 a renda obtida fora do trabalho entre os homens cresceu 21%, enquanto a das mulheres teve um incremento de 47%. Outra constatação da pesquisa é a de que as mulheres solteiras, no mundo inteiro, são mais felizes que as casadas até a chegada da velhice.

Em recente palestra no Grupo de Análise da Conjuntura Internacional (Gacint) da USP, André Lara Rezende indicou que, em sua lembrança, US$ 75 mil por ano para as áreas de maior custo de vida eram considerados pelos estudiosos (livro de Kaheman Thinking, Fast and Slow) um valor referencial. Colocado em outros termos, acima dessa cifra as pessoas não aumentariam sua felicidade.

Quando escrevi o artigo a que fiz referência no início, referia-me à matéria de Mara Luquet de 22/2/2002 segundo a qual a felicidade poderia representar US$ 25 mil por ano. Os pesquisadores por ela consultados à época constataram que o dinheiro compra felicidade, mas existiria uma correlação entre felicidade e renda que é muito próxima no início, iria diminuindo à medida que a renda aumenta e chegaria a ser nula quando a renda chega a US$ 25 mil. Haveria pessoas mais felizes entre os grupos ricos do que entre os mais pobres? E o que é a felicidade?

Permito-me citar uma fábula.

Certo rei, muito rico e poderoso, foi acometido de grande enfermidade. Chamaram os mais competentes médicos, que não conseguiram identificar a doença. Chamaram, então, os sábios, que, depois de muita discussão, concluíram que o rei só ficaria curado se vestisse a camisa do homem mais feliz que pudesse ser encontrado. Após muita busca, o rei perguntou-lhes: "Encontraram o homem?". "Não", foi a resposta. "E por que não?", indagou o rei. "Majestade", disseram eles, "o homem mais feliz do seu reino não tem camisa para vestir."

Em 2001 a revista dominical do jornal The New York Times publicou matéria (também citada no meu artigo) com o sugestivo título Every happy country is happy in its own way, do holandês Rot Veen Hoven. Os resultados da pesquisa indicavam que os colombianos eram mais felizes que os suíços! Os de Gana eram mais felizes que os norte-americanos e os japoneses. Na ocasião consultei o site World Database for Happiness para nos localizarmos na pesquisa. Estávamos com um índice de 7,26 (1966), que era superior ao de Chile, Índia, Venezuela, Uruguai e Espanha, para citar alguns.

Como em 2002, não tenho a pretensão de ir longe demais nesse tema, que tem sido objeto de estudo de filósofos, sociólogos e economistas. No entanto, comparando números recentes citados por André Lara Rezende com os de dez anos atrás, o nível de renda que seria necessário para iniciar um período de indiferença aos ganhos anuais teria de ser multiplicado por três. Excessiva simplificação? Não sei.

Se, no entanto, em dez anos tivemos sensíveis aumentos no bem-estar, diminuição de desigualdades e da pobreza, a qualidade de vida nas megalópoles certamente sofreu grande deterioração. Será que as pessoas que vivem fora das grandes cidades são mais felizes?

Outra pesquisa interessante diz que envelhecer e estar com o peso acima do desejado não significa necessariamente estar associado a decréscimo mental do seu bem-estar. Estudo feito pelo Warwick Medical School, da Universidade de Warwick, analisou estilos de vida e padrões de saúde em outra amostragem, de 10 mil pessoas nos EUA e no Reino Unido, e a conexão da saúde mental e física na qualidade de vida dos participantes. O relatório constatou que as pessoas investigadas indicaram ter melhorado a qualidade de sua vida mental, apesar de um decréscimo na qualidade física. Pesquisas anteriores da mesma universidade, feitas pelo professor Andrew Oswald, indicaram que os níveis de felicidade seguiam o padrão U, ou seja, o ponto mais baixo estava no meado dos 40 anos e, depois, indicavam crescimento à medida que as pessoas envelheciam. Interessante registrar que, para as mulheres nos EUA, baixo nível de exercício físico não tinha impacto em sua qualidade de vida mental, o que não era o caso dos homens, para os quais uma limitação na qualidade física dos exercícios tinha impacto adverso na sua qualidade de vida. Em resumo, com o envelhecimento há uma deterioração óbvia da qualidade de vida, mas isso não afeta seu bem-estar mental, que, ao contrário, se amplia.

E para terminar listo algumas citações bem humoradas que registrei: "O segredo da felicidade é cair nas tentações", "Paris na primavera é receita garantida de felicidade", "Felicidade é ter boa saúde e má memória" - Ingrid Bergman (com o que estou plenamente de acordo).

 

*Fundador e conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), criador e presidente da CVM até 1979, durante 1998 e 200 foi o presidente internacional do Conselho de Empresários da América Latina (Ceal)

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