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Estratégia – estrutura produtiva

O desenvolvimento econômico de um país traz mudanças na sua estrutura produtiva, tema abordado pelo Relatório sobre a Competitividade Global – 2001-2002, do Fórum Econômico Mundial, num resumo feito por três americanos de prestígio em suas áreas de atuação: estratégia e competitividade (M. Porter) e desenvolvimento econômico (J. Sachs e J. MacArthur). Eles apontam três estágios desse desenvolvimento na maioria dos países.

ROBERTO MACEDO*

18 Fevereiro 2016 | 02h55

No primeiro, ele vem principalmente de processos produtivos elementares envolvendo terra e trabalho não qualificado, voltados para produtos agrícolas, florestais e minerais. Aqui esse estágio foi até meados do século 20, voltado para produtos como cana-de-açúcar, mineração, borracha e café. Esse estágio é o de renda mais baixa.

A força propulsora que leva ao segundo, de renda média, é o investimento que traz à produção local tecnologias mais sofisticadas e de uso global. O Brasil está nesse estágio, cujo destaque foi a industrialização voltada para setores como a indústria automobilística e a farmacêutica. Mas, no momento, até recua nessa etapa.

No terceiro estágio um país deixa de importar tecnologia e passa a gerá-la internamente. E nas economias de alta renda “(...) a competitivade global é criticamente associada a altas taxas de aprendizado social (especialmente em ciência) e na habilidade de mudar para novas tecnologias”. Ou seja, educação conta muito.

O Brasil já tem algumas poucas pontes que levam a esse estágio. Uma costuma escapar a olhos míopes e/ou preconceituosos quanto ao setor agrícola. Foi construída por importantes avanços tecnológicos locais que permitiram o forte crescimento do setor desde as duas últimas décadas do século passado, com destaque para a soja. Outra ponte, de alcance bem menor, está na indústria, muitas e equivocadas vezes entendida como o único berço da inovação. É a Embraer.

Qual o caminho para tirar o Brasil deste segundo estágio? Há quem sonhe em ter muitas dessas pontes. Não se pode abdicar dessa ideia, mas hoje o fundamental é o básico: fortalecer o Brasil do segundo estágio, dando-lhe forças para avançar com maior vigor ao terceiro.

Explico. O estágio atual do Brasil é como uma segunda divisão de clubes de futebol. Para avançar à primeira é preciso ficar nas primeiras posições do campeonato da segunda. Como não estamos, cabe melhorar fortemente o desempenho no estágio atual, aumentando a produtividade e a competitividade de setores-chave.

Ao identificá-los, a linha mestra deve ser focar no que já sabemos fazer bem para fazer mais e melhor. Nessa linha, olhando a História do País, o Brasil é particularmente forte no agronegócio, na construção civil, na mineração e na siderurgia.

O sucesso do agronegócio hoje é notório, mas há quem duvide de seu futuro diante da redução do crescimento chinês, com impacto negativo sobre o mercado de commodities. Mas o noticiário costuma tratá-las genericamente, ignorando que as agrícolas estão numa situação muito menos desfavorável do que as minerais e as metálicas. Os preços das agrícolas em dólares caíram menos e, aqui, seu efeito interno se beneficiou da desvalorização do real. E, olhando à frente, a China caminha para reduzir sua taxa de investimento e aumentar a de consumo, medidas com relação ao produto interno bruto (PIB). Lá também continuará a migração do campo para as cidades, ampliando a necessidade de importações agrícolas.

A construção civil entra nesse caminho por várias portas, começando pela do agronegócio, onde são imensas as carências de sua infraestrutura de transporte e de logística em geral. Aprimorar essa infraestrutura é indispensável. E o estado vexaminoso das grandes empreiteiras envolvidas na Lava Jato é uma oportunidade para o governo reformular o acesso à área. Recorrendo, por exemplo, à licitação de obras de trechos ou de etapas menores para permitir que sejam tocadas por empresas de menor porte. Outra porta para a construção civil é o saneamento básico.

A construção habitacional também deve ser impulsionada. O anseio pela casa própria continua disseminado na população, mas é preciso não desviá-la desse propósito pela contínua pregação do consumo exacerbado e financiado, tão a gosto dos governos petistas, mas que põe em risco a prosperidade pessoal e familiar. Aliás, uma lição de educação financeira é que não se deve financiar nada a um prazo maior que a duração do bem financiado. O imóvel passa muito bem por esse teste.

E onde entram a mineração e a siderurgia, se as perspectivas do seu mercado internacional são fracas? Quanto a isso, a ideia seria usar mais aço na construção civil no Brasil, mediante a adoção bem maior de estruturas metálicas relativamente ao tradicional concreto armado. Isso aumentaria a produtividade e a competitividade, pois levaria a obras mais rápidas e de uso em prazo mais curto. Custos maiores também poderiam ser reduzidos pelo fator escala, ou seja, à medida que a quantidade de obras com estruturas metálicas avançasse.

Para seguir nessa linha será necessário mudar a cabeça dos engenheiros, aprimorar a qualificação dos trabalhadores e até alterar regras de licitação de obras públicas, que focam no preço mais baixo, sem levar em conta o prazo de construção.

E mais uma razão: nessa mudança de paradigma da construção civil, o aumento de produtividade, da competitividade e a maior qualificação da mão de obra são passagens do caminho que conduz ao terceiro estágio com que sonhamos, mas ainda carente de ações efetivas para torná-lo realidade.

Este artigo integra série sobre uma estratégia para o Brasil diante da crise atual. O primeiro é de 19/11/2015 e os demais são encontrados em opiniao.estadao.com.br/artigo-de-opiniao/, na primeira e na terceira quintas-feiras de cada mês, com títulos iniciados pela palavra estratégia.

* ROBERTO MACEDO É ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR

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