Estratégia – mais poupança investida

Sua carência é grave e crônica. Questão deve passar à categoria das importantes e urgentes

Roberto Macedo*, O Estado de S.Paulo

03 Novembro 2016 | 03h01

Volto à minha série de artigos sobre uma estratégia para o País diante da crise atual, depois de um intervalo em que cuidei de temas que pediam atenção imediata, como o impedimento de Dilma Rousseff e a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 241, de controle de gastos federais. Também motivou esta retomada a série A Reconstrução do Brasil, de artigos do jornalista José Fucs, que este jornal passou a publicar estimulando reflexões na mesma linha.

Outra razão foi uma das melhores lições de gestão pessoal e institucional que já tive, a que recomenda tratar de questões importantes e urgentes sem negligenciar as que são igualmente importantes, mas não entendidas como tão urgentes, com o que muitas vezes seu enfrentamento é procrastinado. Com isso continuarão a se agravar e em algum momento se revelarão crônicas e carentes de enfrentamento urgentíssimo, mas já então em condições muito mais difíceis. Como essas duas que hoje concentram as atenções do País, a do gravíssimo desequilíbrio das contas públicas e, dentro dele, o da Previdência Social. Estaríamos bem melhor hoje sem a negligência a que foram relegadas no passado.

Hoje o meu tema é um típico do comportamento do ser humano e de várias instituições que constrói, em particular seus governos, estes usualmente geridos com menor cuidado do que o destinado às questões pessoais. Trata-se da busca da gratificação imediata de aspirações via apego ao consumo, seja pessoalmente ou demagogicamente pelos governantes, sem a preocupação de poupar parte considerável da renda nacional e da arrecadação tributária para investir e ter um futuro mais próspero, inclusive para maior consumo, compensando o sacrifício que a poupança impõe no presente.

Há uma forma bem simples de perceber a enorme relevância da poupança investida. Se o leitor sair pelas ruas ou por estradas, verá casas, prédios, fábricas, escolas, hospitais, fazendas e outras edificações que produzem bens e serviços. Quanto maior o volume e a produtividade de quem e do que está dentro delas – de seres humanos a máquinas e equipamentos –, maior será o avanço econômico de seus atores e de suas comunidades, cidades, regiões e países. Se viajar por países mais ricos, o leitor poderá ver a diferença relativamente ao nosso quanto a esses aspectos.

E como isso se constrói? No passado, sucessivas gerações escolheram não consumir tudo o que produziam, poupando parte para investir na expansão de sua capacidade produtiva. Por exemplo, se alguém produzisse só milho, mas consumisse todo ele, exceto as sementes para manter idêntica produção na safra seguinte, essa pessoa não prosperaria. Para avançar teria de consumir menos e poupar mais sementes, investindo-as em produção adicional.

No Brasil a cultura da poupança investida é muito pouco disseminada, e cabe difundi-la entre governantes e governados, juntamente com sua prática. Chega a ocorrer até o contrário, como nos governos petistas, que exercitaram e incentivaram predominantemente o consumo. Isso levou a enormes déficits públicos e ao endividamento da população, ingredientes importantes da crise atual. Em lugar de avanços da poupança investida, houve a prática da despoupança e investimentos foram sacrificados.

Digo poupança investida porque não cabe poupar para entesourar, o que até prejudicaria a economia. Quem poupa pode investir por si mesmo e até em si mesmo, como para se educar ou comprar um imóvel a prestações. Ou realizar aplicações financeiras, com o que seu dinheiro ficará à disposição de investidores. Mas é preciso assegurar que o investimento produtivo se realize. No Brasil, muita gente coloca seu dinheiro em fundos de investimento em títulos da dívida pública. Ou seja, entrega seu dinheiro ao governo, que investe muito pouco, conforme demonstrado, entre outros aspectos, pelas carências de nossa infraestrutura produtiva e de serviços sociais.

Subjacentes ao desapego à poupança investida estão desde questões culturais, incluídas as religiosas – como o protestantismo, que a estimula, enquanto o catolicismo a negligencia –, até a força de circunstâncias, como a pobreza de grandes segmentos da população, o que dificulta a prática de poupar. Há até quem defina como pobre quem não poupa, categoria em que também incluo os pobres de espírito.

Passando à evidência empírica, na literatura sobre experiências históricas de desenvolvimento econômico a importância da poupança é ressaltada, entre outros, pelo famoso historiador econômico David S. Landes, no livro A Riqueza e a Pobreza das Nações – Por que são algumas tão ricas e outras tão pobres (Ed. Gradiva, 1998). E destaco outra contribuição mais recente, esta voltada para o nosso âmbito geográfico, um livrão de 394 páginas publicado este ano pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), cujo título, traduzido da versão em espanhol, é Poupar para se Desenvolver – Como a América Latina e o Caribe podem poupar mais e melhor, título este que por si mesmo resume o que prega essa obra.

Entre vários outros aspectos, mostra que os países emergentes da Ásia poupam em média cerca de 30% do seu produto interno bruto (PIB), enquanto os da América Latina e do Caribe ficam em pouco mais da metade desse valor. Não sem razão, aqueles países se destacam também em termos de crescimento econômico. No Brasil essa taxa foi de apenas 15,8% do PIB no segundo trimestre deste ano.

Enfim, cabe disseminar e praticar no Brasil a cultura da poupança investida. Como a carência dela é grave e crônica, deve passar à categoria das questões importantes e urgentes, e não continuamente procrastinada por governantes e governados. Voltarei ao assunto num próximo texto.

Este artigo integra série iniciada em 19/11/2015, os demais podem ser encontrados em www.estadao.com.br, procurando por “Espaço Aberto Roberto Macedo Estratégia”.

* ROBERTO MACEDO É ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR

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