Estratégia – mais poupança investida (II)

É preciso acumular recursos para prosperar, mas isso não é enfatizado o suficiente

*Roberto Macedo, O Estado de S.Paulo

17 Novembro 2016 | 03h09

 

Adiciono ao meu artigo anterior, que apontou a carência da poupança investida como um dos problemas mais graves do País, ao prejudicar tanto a prosperidade pessoal, familiar e de instituições como o desenvolvimento econômico e social nacional. Poupança investida porque por si só a poupança não leva a investimentos produtivos, como a que financia o governo federal, que se endivida fortemente e investe pouquíssimo.

Diariamente a população brasileira é bombardeada, via meios de comunicação, por uma infinidade de anúncios que apelam ao consumo, num processo que recorre até ao neuromarketing para que seus alvos sucumbam às tentações anunciadas. E nos quase 13 anos de governos federais petistas a população foi induzida a tomar mais crédito, que, se desvinculado de investimentos produtivos, como o habitacional, se volta mais para o consumo. Aliás, prejudica até o consumo futuro, como neste momento de crise, pois o forte endividamento da população no passado contém seus gastos dessa natureza e contribui para estado recessivo da economia.

Carentes de educação financeira, que tem foca muito na disseminação das virtudes da poupança investida e dos hábitos que a constroem, governados e governantes – estes turbinados também pelo populismo – atuam de tal forma que o Brasil tem, relativamente ao seu produto interno bruto (PIB), taxas de poupança e de investimento muito baixas em comparações internacionais. Estas também mostram que os países que têm maiores taxas dessa natureza revelam crescimento mais acelerado.

Como as pessoas, um país também é ele e as circunstâncias. Quanto ao crescimento econômico, o nosso perdeu as décadas de 1980 e 1990. Agora também perde a de 2010. A de 2000 salvou-se parcialmente por circunstâncias favoráveis, como as da economia mundial impulsionada pelo então fortíssimo crescimento da China. Assim, ao lado da crise atual, o Brasil passa também por uma estagnação de longo prazo. Uma das razões mais importantes é que ele não atua como ator principal e eficaz do seu processo de crescimento econômico, ficando assim preso a circunstâncias muitas vezes desfavoráveis. Para desempenhar bem esse outro papel é indispensável que se fortaleça por empenho próprio, guiando-se pelas virtudes de uma poupança investida bem maior e as dissemine entre a população. Obviamente, é preciso acumular recursos para prosperar, mas essa necessidade não é suficientemente enfatizada.

A calamitosa situação por que passa o Estado do Rio de Janeiro exemplifica o que sucede quando se despreza esse caminho. Seu governo se iludiu com a bonança dos royalties do petróleo quando este tinha preços muito maiores que hoje. E o que fez? Sem poupar e investir bem mais para dinamizar a economia estadual, ampliou muito as despesas com o funcionalismo. Também não fez provisões para períodos de vacas magras. Quando em manada vieram recentemente, magérrimas também pela crise nacional, que prejudicou a arrecadação tributária local, chegou a essa situação de não ter como pagar salários em dia e propor fortíssimo aumento de contribuições previdenciárias de servidores, que passariam a até 30% das remunerações por pelo menos 16 anos.

Alguns economistas também têm parte na culpa pela desorientação quando à relevância da poupança investida. Inspirados por leitura incompleta de um de seus pares, o famoso John Keynes, pregam que o investimento é que leva à poupança. De fato, numa economia monetário-creditícia, se alguma pessoa ou instituição tomar empréstimo para realizar um investimento, quando este emerge no sentido físico (casas, instalações, máquinas e equipamentos, etc.), no âmbito da economia também surgirá a poupança correspondente de outros agentes econômicos. Ou aquela parcela da renda que acomodou a realização desse investimento.

Mas essa é só uma parte da história, e não é a maior. Há também o investimento realizado com poupança previamente acumulada, própria ou alheia, que se crescer ampliará o espaço para realização de novos investimentos. E é ela que prevalece na maior parte dos investimentos realizados no Brasil.

Dados do período 2010-2015, levantados pelo economista Carlos Antonio Rocca, diretor do Centro de Estudos do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (IBMEC), elucidam a questão. Ele mostrou que 63,1% dos investimentos realizados no Brasil nesse período vieram de recursos próprios (poupança, lucros retidos e investimento estrangeiro direto). E mesmo entre os recursos alheios 6,7% foram de investimentos habitacionais com recursos da caderneta de poupança e do FGTS, ou seja, previamente poupados. Assim, só a parcela de 30,2%, inferior à metade da soma das duas anteriores, pode ser atribuída a um processo em que investimentos foram tipicamente financiados por crédito (via mercado de capitais, BNDES e financiamentos estrangeiros), levando assim à poupança correspondente.

Listas de reformas e de outras medidas de que o Brasil carece para ter um desenvolvimento econômico e social satisfatório e sustentável usualmente cobrem temática comum que envolve carências em educação, saúde, segurança e infraestrutura em geral, ao lado da solução de problemas como baixa produtividade e competitividade, administração pública de alto custo, baixa eficácia e fiscalmente irresponsável, insegurança jurídica – como na legislação trabalhista –, excesso de burocracia e enorme e distorcida carga tributária. É indispensável adicionar a essa lista a carência de poupança investida. E bem lá no alto, pois vários desses temas exigem vultosos recursos com que o País hoje não conta.

Este artigo integra série iniciada em 19/11/2015, e os demais podem ser encontrados em www.estadao.com.br, procurando por “Espaço Aberto Roberto Macedo Estratégia”.

*Economista (UFMG, USP e Harvard), é consultor econômico e de ensino superior

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