Euforia x realidade

De um lado, a euforia da sexta economia mundial, do trânsito fácil - tem sido fácil mesmo? - pela crise global, da ascensão de milhões da pobreza à classe média. E do outro, a realidade escamoteada do discurso ufanista.

Mario Cesar Flores,

29 Outubro 2012 | 03h07

Vale a pena comentar essa realidade.

Existem indicadores positivos na economia - juros em baixa, crédito abundante, demanda ativa... -, mas a avaliação imune à euforia oficialista sugere apreensão. A infraestrutura precária freia o desenvolvimento - o nosso é o segundo pior da América Latina em 2012 (Cepal) -, o investimento em produtividade não atende a esse problema da competição global, o crescimento do PIB será inferior a 2% em 2012 (abaixo da média sul-americana) e a meta fiscal não será cumprida. Projetos esfuziantes capengam ou não decolam - transposição do São Francisco, Comperj, refinarias do Maranhão e do Ceará, trem-bala, Transnordestina... -, a inflação volta a preocupar, a balança comercial perde fôlego e recaímos no protecionismo, com seus percalços na OMC.

É constrangedora a simultaneidade da sexta economia global com a quarta pior desigualdade na América Latina (ONU, agosto/2012). A vida de parte do povo melhorou com o controle da inflação, o assistencialismo que alivia sem resolver, quando não estimula a conformidade na pobreza, tem reduzido a miséria e a desigualdade decresceu, mas ainda é uma aberração, transparente nas favelas ao lado de bairros de bom padrão, no povão empilhado em péssimo transporte coletivo, enquanto milhares de carros congestionam o trânsito com uma só pessoa! A ascensão à classe média aferida pela renda é questionável: renda mensal de R$ 291 per capita significa mesmo classe média, ainda que baixa? Além de questionável, é viciada pelo poder aquisitivo fictício, pelo consumismo na dívida, feito atestado de classe na lógica populista e do mercado, pondo em dúvida a virtude do crédito fácil, já objeto de alerta do FMI. Carro, moto, iPhone e tablet são prioridades da nova classe média.

A precariedade do nosso ensino fundamental e médio foi evidenciada em pesquisa do Ideb, em agosto - as escolas públicas em pior situação, mas as particulares tampouco satisfazem. O ensino técnico não responde à necessidade do País e o fundamental não atende a seu papel de alicerce da cidadania da base da pirâmide social, subempregada ou na informalidade, legal e ilegal. A propósito: ser "normalista" e professora do ensino fundamental era meta de moças da classe média até meado do século passado. Não é mais...

O número das instituições de ensino superior explodiu nas últimas décadas, muitas delas ficções sem viabilidade de funcionamento razoável, de negócio as privadas e fantasia política as públicas. Nossas universidades estão mal hierarquizadas no ranking global e mesmo as de bom ensino profissional deixam a desejar na moldura cultural. E os artifícios que pretendem a igualdade "na marra" ameaçam agravar a situação (a proteção de todos, obrigação do Estado, exige bom ensino público fundamental e médio, sem viciar o jogo do mérito).

Na saúde e temas correlatos - saneamento, água tratada - o quadro é desolador. Passamos (ideia em tese correta) dos institutos corporativos, que atendiam satisfatoriamente seus afiliados (é bem verdade que parte pequena do povo), para o sistema único (SUS), que atende insatisfatoriamente, se tanto, todo o povo sem plano de saúde, com consequências trágicas no cotidiano da mídia. E os planos de saúde também não vêm atendendo a contento.

A previdência (INSS) corteja o desastre. Estruturada na transferência geracional e em legislação permissiva - em realce a aposentadoria precoce, na contramão do aumento da longevidade e dos países ricos, que, diferentemente do Brasil, não podem sustentá-la... -, seu déficit já pesa na equação fiscal. O problema é ainda mais complexo no setor público.

Nos últimos 80 anos subimos de 30 milhões para 193 milhões de brasileiros, sem que a cultura tenha acompanhado o aumento. Existem destaques, mas em menor número relativamente à população. Na literatura, quem substitui hoje (os nomes citados são exemplos, não esgotam o passado) Machado de Assis, Monteiro Lobato, Érico Veríssimo, Guimarães Rosa, Jorge Amado, José Lins do Rego, Graciliano Ramos...? Na sociologia, Euclides da Cunha, Oliveira Viana, Gilberto Freire...? Na música temos bons intérpretes, mas faltam-nos (faltam no mundo) criadores: quem substitui hoje Carlos Gomes, Alberto Nepomuceno, Henrique Oswald, Villa Lobos e, mais perto do povo, Ernesto Nazareth, Ary Barroso, Pixinguinha...? No canto popular, exotismo na coreografia e aparência pessoal pretendem substituir a arte - Francisco Alves, Elizeth Cardoso e, há menos tempo, Chico Buarque não precisavam desses recursos. Nas artes plásticas, quem substitui Portinari, Tarsila do Amaral, Guignard, Pancetti...?

O potencial para a ascensão cultural do povo é pouco ou não usado na TV, o meio de entretenimento e informação a que hoje mais se recorre. São comuns os shows, filmes, novelas, programas de auditório e noticiosos que mais sensacionalizam do que noticiam, de discutível padrão estético e mental, entremeados por propaganda de nível similar. A lógica é a da audiência não exigente de qualidade.

Finalmente, o desrespeito epidêmico à lei vem tomando proporções de tragédia fora do controle, do atravessar a rua fora da faixa de pedestre à sonegação de impostos, à corrupção, violência e criminalidade generalizadas. Agravam-no o despreparo policial, nossa legislação complacente (na qual se insere o "de menor"), a indulgência lúdica do brasileiro, com sua propensão antipolícia (nos confrontos as vítimas de balas perdidas são sistematicamente atribuídas aos policiais...) e um perigo hoje em ascensão: o estímulo ao consumismo paranoico, no quadro social exacerbado pelas manifestações de desigualdade excessiva e sem que a renda legal da massa consumista lhe corresponda.

* ALMIRANTE (REFORMADO)

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