Falta de identidade

Quem conhece a história do futebol e gosta de livros que narram todas as façanhas do esporte mais popular do nosso país e de outros mundo afora sabe que lá, nos primórdios das competições internacionais, para um jogador fazer parte da seleção brasileira era bem complicado. Havia brigas, troca de farpas, acusações, intrigas, birras e disputas não pelo passe, mas pelo atleta mesmo!

Kalil Rocha Abdalla, O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2011 | 00h00

O selecionado nacional é recheado de jogadores que vivem no exterior, para onde foram em busca de dólares ou euros, e só voltam ao Brasil para curtir as suas férias ou se apresentar ao treinador da seleção. Esse fato mostra uma realidade que demorou demais para ser comentada: a falta de identidade com a seleção e o País.

Voltemos ao século passado, mais precisamente ao ano de 1930, às vésperas do primeiro Campeonato Mundial, que seria jogado no Uruguai: a seleção brasileira era formada por jogadores do Rio de Janeiro e de São Paulo. Mas a persistente rivalidade entre esses Estados para escolher os melhores jogadores para representar o País acabou por tirar do escrete nacional os atletas paulistas - exceção de Araken Patuska, que foi ao Uruguai mesmo contra a vontade dos dirigentes paulistas. Podemos ver nessa atitude o primeiro exemplo de desejo e vontade de servir à seleção brasileira, o que falta aos jogadores atuais, tão badalados e cheios de pose, mas que não têm identificação alguma com o País e a camisa canarinho.

Então, fica uma indagação para ser bem discutida e avaliada: por que não convocar apenas os jogadores que atuam no Brasil? Penso e tenho a convicção de que, se tivessem convocado para a disputa da última Copa América, o mais recente vexame nacional, apenas os atletas residentes no País, estes teriam feito papel bem mais convincente, demonstrando muito mais garra e disposição pela nossa seleção. Mas, é claro, não posso deixar de explicar que minha cobrança é por amor e vontade de jogar pela equipe brasileira, e não só o "status" de ser um atleta de seleção, algo que os jogadores cada vez mais cedo conhecem nas seleções de base e passam a ter como objetivo de vida chegar ao time principal.

O que faltou aos jogadores que foram à Argentina foi justamente isto: gana, raça para defender o Brasil, e isso pela falta de identificação com o País, uma vez que a maioria, repito, só passa por aqui e vai embora. Tenho absoluta certeza disso. Basta assistir aos jogos das seleções de base, que demonstram e apresentam muito mais determinação quando envergam a camisa amarela, tão temida em todos os cantos do planeta.

Não pretendo que os jogadores entrem em campo e joguem arrebentando os adversários. Não podemos confundir raça e vontade com valentia e falsa masculinidade. O futebol é um esporte viril, mas não um espetáculo de brutalidade (claro, há suas exceções, e momentos assim são raros).

Basta acompanhar a história e verificar as convocações da seleção nos mundiais em que o Brasil fez ótimas campanhas e foi campeão. Sempre um, dois ou três times formavam a base da equipe e as demais posições eram completadas por jogadores de destaque em outras praças. É certo também que o eixo Rio-São Paulo formava essa base, mas todos atuavam no País e se conheciam por jogar contra ou na mesma equipe.

Quando a CBD (atual CBF) se organizou e decretou que a escolha dos melhores jogadores seria por suas condições técnicas e qualidade, o Brasil conquistou o terceiro lugar na Copa do Mundo de 1938, disputada na França. Nessa Copa o Brasil apresentou ao mundo o Diamante Negro, Leônidas da Silva, que, na partida contra a Polônia, na prorrogação, marcou um gol descalço. Que prova de amor à camisa da seleção!

Muitos devem recordar-se - até mesmo os que não presenciaram essa chamada época de ouro do futebol brasileiro, mas já viram nos programas esportivos ou aprenderam em revistas e livros - de quando times formavam a base da seleção, em especial nos anos 1960, quando Botafogo (RJ), Santos (SP) e Palmeiras (SP) cediam vários jogadores aos treinadores da seleção. Havia conjunto pelo simples fato de todos serem, realmente, brasileiros.

Como esquecer a seleção comandada por Telê Santana em 1982, no Mundial da Espanha, formada por jogadores que atuavam no Brasil (a esmagadora maioria) e que contava com apenas dois "estrangeiros" - Falcão, da Roma (Itália); e Dirceu, do Atlético de Madrid (Espanha)?!

Nos Jogos Olímpicos de 1984, em Los Angeles, o Brasil chegou perto da medalha de ouro. Metade da equipe chamada pelo treinador Jair Picerni era formada por jogadores do Internacional (RS). Ganhou a prata com um time que representou com orgulho o País. Coisas do futebol.

Essa geração de jogadores que começou a trilhar um caminho de sucesso nas seleções de base atuava no Brasil, pisava em nossos gramados e jogava nos estádios de São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador, Recife e pelo Brasil adentro.

Na Copa do Mundo de 1994, alguns desses jogadores chegaram à consagração. Claro, essa seleção já contava com mais atletas que atuavam na Europa, mas tinha muitos "brasileiros". A experiência deles era a seleção de base, apenas isso. E bastou para que, no espaço de pouco mais de 11 anos, chegassem à maior das conquistas para um jogador de futebol: a Copa do Mundo Fifa.

Atualmente temos talentos precoces que, atuando no Brasil, já demonstraram qualidade e potencial para a seleção. E muito mais vontade. E passaram pela base. O que falta mesmo é ousadia de quem comanda e competência para fazer o time jogar. E mais: olhar mais para o "material" que temos aqui, em nossos gramados.

O que está perto é pouco observado e os que atuam do outro lado do oceano são vistos de perto. Enquanto isso, ficam a empolgação e essa certeza (que não sei de onde vem) de que em 2014 cumpriremos o papel: jogar bem, dar espetáculo e conquistar o Mundial em casa. Estamos, literalmente, pagando para ver.

DIRETOR JURÍDICO DO SPFC, É PROVEDOR DA SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE SÃO PAULO

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