Febre amarela é emergência

Os números da doença não deixam dúvida sobre a gravidade da situação

O Estado de S.Paulo

18 Janeiro 2018 | 03h04

A decisão da Organização Mundial da Saúde (OMS) de considerar como área de risco da febre amarela o Estado de São Paulo - justamente o mais rico da Federação e em princípio o mais bem aparelhado para enfrentar a situação - é o resultado inevitável do agravamento de um problema que não é de hoje e atingiu um estágio agudo, ante a incapacidade das autoridades dos três níveis de poder de enfrentar esse desafio. O que se espera agora do poder público são corajosas medidas de emergência para evitar, custe o que custar, que a situação escape ao controle, com as consequências dramáticas facilmente imagináveis, pois se trata de doença de alta letalidade.

Os números não deixam dúvida sobre a gravidade da situação. Segundo a OMS, desde dezembro de 2016 o Brasil experimenta um aumento da contaminação pelo vírus da febre amarela. Até junho de 2017, foram 777 casos desse tipo. Segundo dados do Ministério da Saúde, já foram registradas 20 mortes. Só no Estado de São Paulo - que desde julho passado teve o maior número de contaminações - foram 11 mortes. Isso explica a medida adotada pela OMS, que já havia declarado zonas de risco o norte do Rio de Janeiro, o sul da Bahia e todo o Espírito Santo.

A intenção da OMS - que recomenda vacinação aos estrangeiros que viajem para essas regiões - é evitar que a doença se espalhe para outros Estados e para países do Cone Sul. São Paulo, outros Estados em situação semelhante e o governo federal, infelizmente, não demonstraram até agora a mesma percepção do perigo da febre amarela, apesar da escalada dos números, nem a capacidade de pronta reação da Organização Mundial da Saúde.

O governo federal, segundo reportagem do Estado, evita falar em surto da doença e diz que a decisão da OMS foi tomada em acordo com o Brasil por um "excesso de zelo" e, por isso, não altera a sua estratégia para enfrentar o problema. Já o governador Geraldo Alckmin anunciou uma medida tímida, para dizer o mínimo: a antecipação da vacinação em São Paulo, de 3 de fevereiro para 29 deste mês. Segundo ele, 7 milhões de pessoas serão vacinadas em 54 cidades nessa fase e, até o fim do ano, toda a população.

É espantoso o alheamento da realidade dos governos federal e paulista. E nada indica que seja diferente nos outros Estados. O primeiro não quer mudar nada do que vinha fazendo e o segundo acredita que a maioria dos paulistas deve confiar na sorte até o fim do ano.

Isso está a léguas de distância do que espera a população - que tem razões de sobra para se preocupar - e do que exige a gravidade da situação. O que está na obrigação dos governos federal e dos Estados mais atingidos é se desdobrar para vacinar toda a população sob risco. Para isso, é preciso buscar vacina onde quer que elas existam e mobilizar o pessoal de saúde necessário para fazer imunização em massa. O custo de uma operação como essa - recursos para aquisição de vacina na quantidade necessária e coordenação dos serviços de saúde municipais, estaduais e federais - é alto.

Mas essa é claramente uma situação excepcional. O que está em jogo é a vida de milhões de brasileiros, ameaçada por uma doença gravíssima, cuja taxa de mortalidade é muito alta e que vem se espalhando com rapidez. Não se trata de semear o pânico, mas encarar os fatos como eles são, em toda sua crueza, e de tentar acordar as autoridades de seu sono irresponsável.

Veio muito a propósito a divulgação no final do ano passado do estudo Febre Amarela no Brasil, feito pela Fundação Getúlio Vargas. Ele mostra que as principais causas do avanço da febre amarela foram mau planejamento das ações preventivas, falta de prioridade a ele pelas prefeituras das cidades mais afetadas, morosidade do processo decisório dos Estados, critérios equivocados no repasse de verbas e deficiência na articulação entre municípios, Estados e União. 

Ou seja, mais do que falta de recursos, falha de gestão. Em outras palavras, o poder público pode sim, desde que queira de verdade, enfrentar o problema.

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