FMI cata dinheiro para a crise

Com o prolongamento da crise na Europa e o aumento de riscos para as economias emergentes e também para os países pobres, o Fundo Monetário Internacional (FMI) vai precisar de mais dinheiro para novas operações de socorro, estimadas em cerca de US$ 1 trilhão nos próximos anos. A primeira providência será obter US$ 500 bilhões adicionais para ampliar a curto prazo sua capacidade de ação - ou seu poder de fogo, como disse a diretora-gerente, Christine Lagarde, logo depois de uma reunião interna sobre as novas necessidades de financiamento. Está incluído nos US$ 500 bilhões o aporte de US$ 200 bilhões prometido recentemente por governos europeus, segundo informou nessa quarta-feira um porta-voz da organização. Se esse compromisso for cumprido - e nem disso há garantia -, faltará levantar a maior parte do dinheiro.

O Estado de S.Paulo

19 Janeiro 2012 | 03h07

Os grandes emergentes, como Brasil, China, Rússia e Índia, serão provavelmente chamados para contribuir, mas imporão condições para participar. Quando comenta o assunto, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, costuma cobrar uma compensação política - mais peso para os emergentes no comando da instituição.

A obtenção de verbas adicionais será especialmente complicada por causa da campanha eleitoral nos Estados Unidos, país detentor da maior cota de recursos do FMI. Já será uma vitória se o governo americano mantiver os US$ 100 bilhões postos à disposição do Fundo em 2009, porque vários congressistas pressionam o Executivo para retirar esse dinheiro. A verba poderia ser usada, segundo plano do Tesouro, como contribuição para o aumento da base normal de recursos do FMI. Além do mais, a oposição americana tem-se manifestado contrária a qualquer ajuda para solução da crise europeia. A contribuição mais tangível tem sido proporcionada pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) por meio de empréstimos de liquidez a outros bancos centrais.

A diretora Christine Lagarde levará o problema do dinheiro adicional à próxima reunião de ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais do Grupo dos 20 (G-20), prevista para os dias 25 e 26 de fevereiro na Cidade do México. A última reunião de chefes de governo do grupo, realizada em novembro, em Cannes, terminou sem nenhuma deliberação importante.

Em setembro, durante a reunião anual do FMI, em Washington, Lagarde abriu a discussão sobre a busca de recursos novos para mais ações de socorro. O Fundo está envolvido em cerca de 50 acordos de ajuda a países de todos os continentes. Esses programas envolvem aproximadamente US$ 260 bilhões e beneficiam nações europeias, como Irlanda, Portugal, Grécia e Polônia, grandes emergentes, como o México e Colômbia, e uma porção de economias pequenas e mais pobres.

O Fundo precisa preparar-se não só para atuar na Europa, mas também para enfrentar os efeitos da crise do mundo rico em outras economias, como ressaltou a diretora-gerente na terça-feira.

O FMI divulgará no dia 24 uma atualização das projeções econômicas de setembro. O Banco Mundial acaba de publicar suas novas projeções, bem mais pessimistas que as formuladas há seis meses. A estimativa do crescimento global em 2011 foi revista de 3,2% para 2,7%. A previsão para 2012 foi reduzida de 3,6% para 2,5%. Também piorou a expectativa em relação a 2013 e a expansão projetada passou de 3,6% para 3,1%. Nenhum país, segundo as previsões, ficará imune à deterioração do quadro econômico.

Também a América Latina, depois de um desempenho bastante razoável durante a primeira fase da crise mundial, será afetada, porque as condições do comércio serão mais difíceis e a evolução dos preços das matérias-primas será menos favorável. O crescimento projetado para o Brasil foi reduzido de 4,1% para 3,4% em 2012, mas aumentou de 3,8% para 4,4% em 2013. É inútil discutir, nesta altura, se a previsão mais segura é a do Banco Mundial ou a do governo brasileiro, com sua expectativa de expansão de até 5% neste ano. Muito mais prudente é preparar o País para mais um ano difícil, com estímulos bem planejados e muito cuidado no manejo das finanças públicas.

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