Fogueira bizarra

Na época da Revolução Constitucionalista, em 1932, o Brasil passava por uma profunda transformação. O País essencialmente rural cedia espaço à nascente industrialização. Cresciam as cidades, mudava a sociedade. A oligarquia agrária perdera sua hegemonia no poder republicano.

XICO GRAZIANO *,

09 Julho 2013 | 02h05

Pouco antes, em outubro de 1930, o gaúcho Getúlio Vargas assumira a Presidência da República no bojo de outra revolução, mais significativa na História, encerrando a chamada República Velha. Até então, por longo período predominara a famosa "política do café com leite", durante a qual os Estados de São Paulo e de Minas Gerais fizeram um rodízio no mando do Brasil. O golpe militar tramado pela Aliança Liberal impediu a posse de Júlio Prestes, eleito naquele março com apoio de 90% dos votos paulistas.

No fundo, quem perdia mesmo eram os fazendeiros do café e seus mercadores. Após o ciclo da mineração, e com a mudança da capital do País para o Rio de Janeiro, a vida econômica da Nação havia se deslocado. Os cafezais, já por volta de 1850, tomavam conta do Vale do Paraíba e rumavam para as terras roxas de Campinas, atingindo depois, no estertor do século, a região de Ribeirão Preto. Finda a escravidão, implantou-se o colonato do café, constituído principalmente com imigrantes italianos, reforçando o poderio da economia paulista, cujas ferrovias escoavam o valioso "ouro verde" até o Porto de Santos. Época gloriosa.

Após 50 anos de prosperidade e bonança, começaram os problemas advindos da superprodução de café. Em 1905, segundo o historiador Caio Prado Jr. (História Econômica do Brasil, Ed. Brasiliense), os estoques de café estavam em 11 milhões de sacas (60 kg), cerca de 70% do consumo anual mundial. Os preços, obviamente, se rebaixaram, mobilizando os produtores a favor da intervenção pública na sustentação da sua renda. O governo interveio no mercado, realizando maciças compras da mercadoria, agradando momentaneamente aos cafeicultores. A política, porém, executada por duas décadas, alimentou um desastre.

Acontece que o mecanismo da formação de estoques públicos, ao manter os preços artificialmente elevados, continuava, como consequência, estimulando o plantio de novos cafezais. Crescia o desequilíbrio entre produção e consumo. A safra de 1927/1928 rendeu 26,1 milhões de sacas de café, 10% acima do consumo mundial no ano. Os estoques continuavam aumentando, onerando o governo e empurrando o problema para a frente. Comandando politicamente o Estado, em acordo com os interesses de Minas Gerais, a oligarquia cafeeira paulista progredia lançando notas promissórias contra o futuro. Tudo funcionou até chegar o craque da Bolsa de Nova York, em outubro de 1929. A quebradeira foi geral.

Cozinhadas durante toda a década de 1920, as insatisfações políticas somaram-se à crise econômica. Nesse contexto, a posse de Getúlio Vargas significava uma derrota do poderio econômico de São Paulo. A troca no comando político do País favoreceu os novos agentes empreendedores, ligados às nascentes classes médias e aos interesses das burguesias regionais, que se sentiam excluídas pela dominação cafeeira. Nas palavras de Boris Fausto, em seu extraordinário A Revolução de 30, o fim da hegemonia oligárquica forneceu ao Brasil um "atestado de ingresso na maioridade política". A burguesia do café, nas palavras dele, acabou "apeada do poder".

Nesse rompimento da História, quando a velha ordem agrícola é substituída pela lógica urbano-industrial, se escondem algumas das razões que geraram, dois anos depois, a Revolução Constitucionalista. Oficialmente, na visão construída pelos derrotados de 1930, a "Guerra Paulista" forçava a promulgação de uma nova Constituição para o Brasil. Embora seus argumentos fossem cívicos, sempre em defesa da democratização, a revolta de 1932 parece mais ter sido uma revanche política - que resultou frustrada - dos paulistas àqueles que lhes haviam surrupiado a centralidade do poder.

Talvez por essa razão até hoje a data cívica mais importante do Estado de São Paulo nunca tenha sido bem compreendida pela população. Nas escolas a meninada decora, mas não entende o porquê daquela encrenca. Parece uma fantasia da História. Na zona rural de vários municípios paulistas, porém, encontram-se vestígios das batalhas que envolveram cidades fronteiriças. Em Águas da Prata, na subida da Serra da Mantiqueira para Poços de Caldas, volta e meia se descobrem utensílios e munições enferrujadas como que a provar que, de fato, soldados por ali brigaram. Na região de Campinas, em Atibaia, Itapira, Bragança Paulista; no Vale do Paraíba, em Caçapava, Lorena, Cruzeiro; na divisa com o Paraná, em Buri, Guapiara, Itararé; todos esses lugares guardam duvidosas lembranças de uma incompreendida guerra.

Rendida a tropa constitucionalista, Getúlio Vargas nomeou Armando de Salles Oliveira interventor em São Paulo, reconciliando-se com a classe política paulista. A partir desse momento, todos se juntaram para resolver a mais difícil equação da história da política agrícola brasileira: o que fazer com as montanhas de café que se haviam formado nos armazéns por causa das compras públicas, desde 1906. Velhos, ardidos, mofados, os absurdos estoques pareciam invendáveis.

A solução encontrada foi a mais bizarra de todas: queimar os grãos. As fogueiras que esfumaçaram e aromatizaram a atmosfera destruíram, entre 1931 e 1943, cerca de 72 milhões de sacas de café em grão. Uma enormidade. Ocorreu, assim, na feliz expressão cunhada por Celso Furtado, uma "socialização dos prejuízos".

Nunca mais o Brasil pegou em armas para guerrear internamente. Nem cometeu de novo a insanidade de queimar café.

 

* XICO GRAZIANO É AGRÔNOMO, FOI SECRETÁRIO DE AGRICULTURA E SECRETÁRIO DO MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SÃO PAULO. E-MAIL: XICOGRAZIANO@TERRA.COM.BR.

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