Fragilidade da siderurgia

Com uma capacidade instalada para produzir 48 milhões de toneladas de aço, um recorde histórico, a siderurgia brasileira vive atualmente uma das suas piores fases. Enquanto as suas exportações encolhem, as siderúrgicas nacionais não conseguem defender-se nem mesmo no mercado interno. Dos 26 milhões de toneladas anualmente consumidas no País, 3,5 milhões provêm de países que atuam agressivamente na exportação, grupo que inclui a China, Coreia do Sul, Rússia, Ucrânia e até mesmo a Turquia.

O Estado de S.Paulo

05 Julho 2012 | 03h02

Apesar da alta do dólar diante do real, persistem queixas das siderúrgicas quanto ao câmbio, mas há problemas mais complexos, ligados ao custo Brasil, que agravaram ainda mais a falta de competitividade do produto nacional em um período em que há excesso de oferta no mercado mundial de aço, estimado em 500 milhões de toneladas. O alto custo de produzir no Brasil pôs fim a um período em que o País era visto como uma plataforma para exportação de produtos siderúrgicos.

Um caso exemplar é a situação da Cia. Siderúrgica do Atlântico (CSA), cuja construção começou em 2006 e que começou a operar em 2010 no distrito industrial de Santa Cruz, no Rio, voltada para a exportação. A CSA, controlada pela ThyssenKrupp, em parceria com a Vale, divulgou há pouco um prejuízo de R$ 7,97 bilhões no último ano fiscal, e está à venda. O Grupo ThyssenKrupp anunciou que também quer se desfazer de sua laminadora em Mobile, no Alabama, para a qual pretendia exportar anualmente US$ 1 bilhão.

"O jogo mudou nos últimos cinco anos", disse Albano Chagas Vieira, presidente do Instituto Aço Brasil (IABr). Segundo ele, o processo começou antes mesmo da crise financeira global de 2008 e, aos poucos, "perdemos a nossa força de competição no mercado externo". Além das importações diretas de aço, às vezes subsidiadas pelos países produtores, como no caso da Turquia, o setor também se ressente de importações indiretas, ou seja, de produtos acabados de aço, cuja entrada supera 5 milhões de toneladas por ano.

Para uma recuperação, segundo Chagas Vieira, as empresas devem, em primeiro lugar, investir mais na integração de suas operações, para reduzir os custos de produção, mediante um melhor aproveitamento da principal matéria-prima - o minério de ferro - e outros insumos. Ao mesmo tempo, as siderúrgicas devem lutar pela desoneração tributária.

Estudo feito pelo IABr mostrou que, antes da tributação, o Brasil é o terceiro país mais competitivo do mundo para produzir aço. Acrescido o imposto, o País cai para o último lugar no ranking global de competitividade. Estreitamente ligado a essa questão está o custo de energia elétrica, que vem se tornando proibitivo. Segundo cálculos do IABr, o custo de energia subiu de US$ 27/MWh para US$ 120/MWh em dez anos. O governo está ciente do problema, como observou o presidente do IABr, mas a solução é complexa, uma vez que não requer apenas redução de tributos federais, mas também do ICMS cobrado pelos Estados.

A persistir a situação atual, faz mais sentido expandir a capacidade de produção de minério do que instalar novas indústrias siderúrgicas no País. Entre os pontos negativos, os industriais da área também destacam a baixa evolução do consumo de aço no Brasil, que era de 100 kg per capita em 1980 e hoje não passa de 145 kg per capita. Na China, o consumo per capita, alavancado pela expansão industrial e pelas obras de infraestrutura, pulou de 34 kg para 500 kg de 1980 para cá. Essa relativa estagnação do consumo de aço no País se deve, em parte, ao pouco uso de aço pela construção civil e, principalmente, ao atraso nas obras de infraestrutura.

Como afirmou André Gerdau Johannpeter, presidente do Grupo Gerdau, ao jornal Valor (14/6), há um grande elenco de investimentos previstos, mas os projetos não evoluem na velocidade adequada. Para que essa situação se reverta, é necessária melhor gestão de recursos públicos com ênfase em parcerias público-privadas e concessões ao setor privado.

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