Ganhos contidos

O mercado de trabalho, que mostrava grande resistência às dificuldades causadas às empresas pela desaceleração da atividade econômica, já apresenta sinais de deterioração. As empresas reduziram o ritmo de contratação, menos trabalhadores estão conseguindo aumentos reais de salários e os ganhos estão encolhendo.

O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2013 | 02h10

Sindicatos de categorias mais organizadas e que, por alguma razão, têm maior poder de barganha nas negociações com os empregadores conseguiram negociar acordos coletivos bastante favoráveis para os trabalhadores de suas bases. Outros, que representam grandes contingentes de empregados e estão em início de negociações salariais, tentam repetir os bons aumentos que conseguiram no ano passado. Mas a maioria teve ou está tendo mais dificuldades para assegurar ganhos reais e, quando os consegue, tem de se contentar com índices menores.

O frustrante resultado da criação de empregos formais em julho é um sinal de que o mercado de trabalho perde o dinamismo que vinha apresentando. No mês, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) divulgados há dias pelo Ministério do Trabalho, o saldo líquido de empregos formais foi de 41.463 postos, o menor resultado para julho desde 2003. O mercado formal ainda cresce, mas a velocidade de crescimento diminui. Não há projeções oficiais para o desempenho de todo o ano, mas é bastante provável que o resultado seja um dos menores desde o início da crise mundial, em 2008.

Dados da Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE, que tem menor abrangência geográfica (seis regiões metropolitanas) mas inclui o trabalho informal, mostram situação melhor do que o apontado pelo Caged. Também do ponto de vista das negociações salariais, a situação geral continua bastante favorável aos trabalhadores.

Estudo concluído há pouco pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que, dos 328 acordos salariais concluídos no primeiro semestre, 85% tiveram reajuste superior à variação do INPC. Trata-se de um índice alto, se se considerar o pífio desempenho da economia brasileira. Mas é baixo se comparado com os resultados do ano passado, quando 96,3% dos acordos asseguraram aumentos salariais reais para os trabalhadores.

Além de ter diminuído a fatia dos acordos que asseguraram ganhos reais, diminuiu também o aumento real médio neles previsto, de 2,26% em 2012 para 1,19%. A aceleração da inflação e a desaceleração da atividade econômica reduziram o poder de barganha dos trabalhadores. "Há menor fôlego por parte das empresas para conceder reajustes acima da inflação", na avaliação do coordenador de relações sindicais do Dieese, José Silvestre.

A indústria automobilística, que tem obtido vantagens tributárias e financeiras especiais do governo, parece menos afetada pelos problemas que afligem os dirigentes das demais empresas. Os empregados de duas montadoras que fecharam os acordos salariais recentemente, que mantêm fábricas em São Paulo e no Paraná, terão aumentos reais de 2% e de 3,5%. No ano passado, os trabalhadores de outra montadora, instalada no Vale do Paraíba, conseguiram assegurar aumentos reais anuais de 2% até 2016.

As negociações dos metalúrgicos do ABC - que por muitos anos estabeleceram os parâmetros para os acordos de outras categorias profissionais - ainda estão em andamento, e o sindicato que os representa certamente tentará obter ganhos pelo menos iguais aos conseguidos por empregados de outras montadoras.

Da mesma forma, grandes categorias profissionais, como as dos bancários e dos petroleiros, que estão iniciando as negociações em nível nacional, querem grandes aumentos reais. Seus sindicatos apontam os lucros das empresas como justificativa para suas reivindicações de aumentos reais elevados, de até mais de 10%. Certamente, ao longo das negociações, serão forçados a rever seus pedidos, pois a realidade é pior do que a que tentam mostrar. E isso vale para as demais categorias.

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