Gente que fala

No início dos anos 1990, o cineasta Roberto Gervitz realizou uma bela série de TV. O nome era Gente que Faz. Em documentários muito breves, de poucos minutos cada um, ela apresentava pessoas reais que venciam vicissitudes com trabalho duro e determinação. Agora está em cartaz um documentário que também nos apresenta a saga de brasileiros batalhadores. O nome é Família Braz - Dois Tempos.

Eugênio Bucci, O Estado de S.Paulo

16 Junho 2011 | 00h00

Fora isso, uma diferença muito grande separa os dois projetos. O primeiro, de Gervitz, usava o recurso do narrador em off, a quem cabia contar a história dos personagens. Em Família Braz, a locução em off é mínima, quem conta a história dos personagens são os próprios personagens. Em Gente que Faz, as figuras na tela emocionavam o espectador pelos seus atos. Em Família Braz, elas emocionam antes pelo que dizem, emocionam por tomarem posse das narrativas de sua vida.

Para quem quer entender a quantas anda o Brasil que vai conseguindo escapar da pobreza - e para quem quer ouvir de perto a voz desse País -, Família Braz - Dois Tempos é programa obrigatório. Dirigido por Arthur Fontes e Dorrit Harazim, o documentário mostra dois momentos distintos de uma família da Brasilândia, bairro da periferia da cidade de São Paulo. O primeiro é o ano de 2000, quando os quatro filhos do casal Braz ainda não haviam entrado no mercado de trabalho. O segundo momento vem dez anos depois. Agora a família tem quatro automóveis. A frota cresceu, a receita cresceu, a casa cresceu e a autoestima também. O movimento de ascensão econômica é claríssimo. O filme exibe em preto e branco os depoimentos registrados há dez anos, deixando em cores apenas o que foi filmado agora, o que acentua o contraste entre o antes e o depois. Acima de todas as imagens, porém, o que rouba a cena é a palavra.

O próprio nome do filme já é de uma sonoridade boa de escutar. Família Braz soa como um desses acrônimos estatais que trazem embutida a ambição de grandeza nacional. Acontece que essa Família Braz, em particular, não contém a petulância estatal. Sua grandeza é outra. Ela não é Brasil grande. É Brasilândia. E Brasilândia, no dizer dos próprios protagonistas, fica do lado de lá da ponte. Da Brasilândia eles não abrem mão. Anderson, o filho mais velho, afirma que não quer deixar o bairro. Se for para o outro lado, será "mais um". Se ficar, como acaba ficando, será mais um "analisando eles". Esse "eles" designa os de cima, os narradores oficiais, os narradores desde sempre, os que falam do pessoal da Brasilândia na terceira pessoa. Lembremos que até o ano passado eram frequentes na fala de ministros expressões como "tiramos tantos milhões da linha de pobreza". Nesse discurso, os "milhões de brasileiros" entravam como objeto, não como sujeito. Entravam como carga humana transportada de um lugar para outro. Em Dois Tempos, o que ouvimos é bem diferente: são sujeitos que falam como donos de seus caminhos. Também isso é interessante ouvir.

Mas quem é, exatamente, que toma a palavra nesse filme? Eis aí uma boa pergunta, que só realça o valor do filme. Será que o narrador é mesmo alguém de sobrenome Braz? Ou será que as falas da família Braz apenas realizam colagens de outras falas? Provavelmente, as duas hipóteses são verdadeiras.

Na fala dos Braz comparecem falas alheias, algumas vindas de muito longe. Quando a filha Denise conta que, ao início de cada ano, estabelece metas objetivas de realização pessoal - que, para ela, são um automóvel, uma cirurgia plástica e um cruzeiro turístico -, o que transparece é um híbrido entre a linguagem da economia e a linguagem das telerreligiões. As metas de Denise têm um pouco de "planejamento estratégico" e um pouco dos pedidos que os fiéis das telerreligiões apresentam a Deus em cultos transmitidos ao vivo pela televisão aberta. Ela também diz que cada um traça o seu destino pelas escolhas que faz. O destino deixa de ser um fardo, uma fatalidade. Denise aposta em sua força individual, algo como livre-iniciativa ou protagonismo. Na voz dela ecoam elementos de uma ética protestante - e isso, num país em que a Reforma só apareceu muito depois da Contrarreforma, não deixa de ser uma boa nova.

Nessas falas todas, vai se costurando um intenso alinhamento entre o personagem e a cultura do mercado, tanto no que ela representa de liberdade individual como no que ela representa de trabalho extenuante, sem lugar para o ócio, sem lugar para o amor. Nas frases muito bem encadeadas de Denise se abre o clássico dilema da mulher que se emancipa no capitalismo: ela não sabe se casa ou se compra uma bicicleta; não sabe se escolhe um lar ou uma carreira. Denise, enfim, fala como uma "executiva de sucesso". Na linguagem, e na vida material, ela está chegando lá.

Em suma, o sujeito que sobe na vida vai se apropriando do discurso para o qual aflui, tanto para o bem quanto para o mal. Para o bem: ele assume o ônus e as consequências do que acredita ser a sua escolha de vida. Para o mal: ele vira mais um entre aqueles que queria analisar sem cruzar a ponte. Ao virar dono dessas falas, o sujeito que sobe na vida se converte num agente da ordem que antes ele temia. Aquela ordem, ele vai descobrir, era apenas uma ordem feita de palavras. Aquela ordem não vai mudar.

Assim, Família Braz nos mostra a Brasilândia onde há crescimento sem haver mudança. O filme expõe, no microscópio, numa família só, um deslocamento de multidões. Por esse deslocamento, milhões foram, sim, retirados da linha de pobreza (esteja essa linha onde estiver) - mas não foram retirados dali por uma autoridade ministerial, e sim por sua própria fala.

Fora o que, todo discurso é uma colagem de outros, inclusive este que você leu neste artigo. Em boa medida, a família Braz fala por mim. E por você. Na dúvida, vá ao cinema.

JORNALISTA, É PROFESSOR

DA ECA-USP E DA ESPM

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