Globalização e recessão política

Democracia em risco é o assunto mais preocupante do Fórum Econômico Mundial neste ano

O Estado de S.Paulo

25 Janeiro 2018 | 03h03

Democracia em risco é o assunto mais preocupante do Fórum Econômico Mundial neste ano. A economia em firme recuperação na maior parte do globo é a boa notícia, apesar de uma coleção de ressalvas. Fala-se do risco de uma nova bolha financeira, alimentada pelo dinheiro barato no mundo rico. Quem olha um pouco mais para a frente prega reformas para aumentar o potencial de crescimento e livrar o globo da armadilha da mediocridade. Também há preocupação com os desequilíbrios sociais e internacionais trazidos pela globalização. Milhões de trabalhadores ficaram para trás numa fase de rápida mudança tecnológica. Mas a novidade maior, no capítulo dos temas sombrios, é a ascensão das políticas nacionalistas, populistas e tendentes ao autoritarismo.

A economia voltou a crescer, mas a democracia liberal, segundo alguns analistas, parece ter entrado em recessão. Uma das figuras centrais dessa história participará de uma sessão especial do Fórum. O presidente Donald Trump, símbolo mais vistoso do novo populismo nacionalista, deverá aparecer no centro de Congressos de Davos.

Há um ano, dias antes de sua posse, Trump mandou a Davos um colaborador de campanha para defender, explicar e, se possível, embelezar suas ideias sobre relações internacionais e sobre comércio global. Mas seu sucesso foi quase nulo. Aquele Fórum foi dominado pelo presidente chinês, Xi Jinping, com um discurso a favor da globalização e da liberalização dos mercados.

A reunião do ano passado também teve entre suas estrelas a primeira-ministra Theresa May, empenhada em explicar e defender o abandono da União Europeia pelo Reino Unido – consequência de uma campanha também nacionalista e associada, por muitos analistas, às bandeiras de Donald Trump. Theresa May tentou negar qualquer parentesco entre o plebiscito britânico e as ideias do recém-eleito presidente americano. Teve êxito limitado.

A preocupação com a democracia liberal e também com o futuro da globalização ganhou importância ao longo do ano. A reunião do Fórum, neste ano, foi escolhida para o lançamento de um volume sobre o futuro da política (The Future of Politics), editado pelo instituto de pesquisa do banco Crédit Suisse. “Este é um bom momento para examinarmos a estrutura de nossas sociedades – a ordem liberal, democrática e internacional.”

O volume é composto de ensaios de figuras públicas, como o ex-primeiro-ministro britânico John Major, e de acadêmicos de grande reputação na área de Política, como os professores Francis Fukuyama, de Stanford; Michael Ting, de Columbia; e Nicholas Burns, de Harvard e ex-subsecretário de Estado do governo americano. No ano passado, escreveu John Major, citando um levantamento das Nações Unidas, 67 países sofreram declínio das liberdades políticas e civis, enquanto apenas 36 tiveram ganhos. Movimentos nacionalistas expandiram-se na Europa, disfarçados muitas vezes com bandeiras patrióticas, mas o nacionalismo, acrescentou, é autoritário e muitas vezes se converte em autocracia e em ditadura. Francis Fukuyama também chama a atenção para a nova tendência – o número das democracias parou de aumentar nos anos 2000 e entrou em declínio. Uma característica dos novos regimes populistas, segundo ele, tem sido o uso da democracia para minar os pilares do Estado e da lei. A grande questão, segundo Fukuyama, é se a atual tendência é só uma recessão democrática, superável dentro de algum tempo, ou se as forças hoje visíveis continuarão a fortalecer-se e a minar a democracia liberal em mais países. Fukuyama enumera razões para esperança, como o caráter autodestrutivo das soluções populistas, mas admite a dificuldade de responder à questão.

O debate sobre os efeitos sociais da globalização, hoje importante na pauta do Fórum, é parte dessa ampla interrogação sobre o futuro da democracia, mesmo quando a relação fica apenas implícita. Com isso, recessão tem um novo sentido – agora político – no vocabulário do Fórum Econômico Mundial.

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