Governar para o bem do povo

A tarefa de recuperar o País deve-se pautar pela paz, ratificando o sereno espírito dos brasileiros

Dom Orani Tempesta, O Estado de S.Paulo

13 Junho 2016 | 03h04

Valorizar e acreditar nas instituições, neste momento de mudanças significativas e de grande efervescência política, é muito importante para o Brasil. Sob essa premissa e orando pelo governo afastado e a nova gestão, para que se encontre o caminho da promoção do bem comum, é preciso empreender muitas melhorias no sistema republicano e presidencialista de nosso país.

Nesse sentido, há um aspecto importante a ser considerado: 28 anos após a promulgação da Constituição de 1988, deve-se aperfeiçoá-la, inclusive para evitar dúvidas sobre a constitucionalidade de alguns procedimentos e práticas, que têm sido muitos nos atuais debates, dificultando soluções e favorecendo o desentendimento. Deve-se lembrar que a reforma da Carta é um anseio da sociedade que vem sendo postergada nos sucessivos governos e legislaturas. Há, agora, boa oportunidade para concretizar essa tarefa tão importante para os brasileiros.

Por outro lado, urge neste momento, na administração do presidente da República em exercício, olhar à frente e recuperar o País para o bem de nosso povo. No entanto, a execução dessa prioridade, em meio às democráticas e naturais divergências políticas, deve pautar-se pela paz, ratificando o espírito sereno, pluralista e tolerante dos brasileiros. A alternância no poder é salutar. Cabe à oposição, com razoabilidade, critério e seriedade, sem radicalismos e violência, fiscalizar e ajudar a encontrar novos caminhos para a Nação.

Não se deve, em todos os partidos, na situação ou na oposição, incitar a discórdia. É preciso estar atento à realidade nacional, às tendências de comportamento e ao que tem ocorrido no contexto das discussões políticas. Raramente se observou no País tanta truculência verbal, expressa inclusive nas redes sociais, nos debates nas empresas e até no âmbito das famílias. Há numerosas notícias de amizades desfeitas, ofensas pesadas e sistemáticas e até mesmo de mensagens contendo discriminação étnica e regional.

Tudo isso contraria muito o caráter da brasilidade, marcado pela convivência pacífica entre as diferentes ideias, ideologias, credos e etnias. Somos uma nação constituída por distintos povos e culturas, e essa é uma de nossas mais importantes virtudes, pois nos ensinou a tolerância. Não podemos abdicar desses valores.

A agressividade, mesmo que restrita à verbalização, contraria, ainda, os preceitos do cristianismo, nos quais se sobressai o conceito do amor ao próximo. Tal sentimento não pode ser relativizado ou aplicado apenas nas circunstâncias favoráveis do País e da sociedade. Deve prevalecer principalmente nos momentos de crise e de tensão, contribuindo para que a harmonia social seja um dos fatores favoráveis ao encontro das soluções.

No âmbito da política também não cabem quaisquer espécies de agressões. A democracia existe para que todas as ideologias e opiniões possam ser livremente expressas e respeitadas, sem patrulhamento, censura e revanchismo. Críticas, discussões e ideias opostas são válidas e saudáveis, porém respeitando o próximo e as posturas republicanas. A truculência, inclusive moral, é descabida.

Cabe às lideranças políticas dar o bom exemplo. Nesse aspecto, é oportuno recordar Santo Agostinho (354-430), cuja inspiração cristã transcende ao tempo e lhe dá impressionante atualidade no cenário contemporâneo do Brasil: “A política constitui uma atividade fundamental para que, no seio da sociedade humana, haja o bem e a paz”. Portanto, não é hora de apontar vitoriosos e derrotados. O importante é consertar os erros do passado, preservar o que deu certo, cuidar bem do presente e vislumbrar o futuro. Deve-se respeitar a opinião de todos os irmãos brasileiros, encontrando nas divergências as contribuições para as soluções dos problemas, que são muitos, exigindo grande empenho e mobilização dos poderes constituídos e das instituições.

Em meio a essas prioridades nacionais e em consideração aos preceitos democráticos, à natureza pacífica dos brasileiros e à fé cristã, é, portanto, imprescindível manter a harmonia social, repudiando a truculência e o desrespeito às posições de cada cidadão. Lembremos a sabedoria do papa Francisco, no Sínodo 2015: “O desafio que temos pela frente é anunciar o Evangelho ao homem de hoje, defendendo a família (ou seja, todos nós – observação minha) dos ataques ideológicos e individualistas. Sem jamais cair no perigo do relativismo ou de demonizar os outros, devemos abraçar plena e corajosamente a bondade e a misericórdia”. Pois bem, é com tal espírito que o Brasil conseguirá avançar e superar as adversidades presentes!

As prioridades a serem enfrentadas pelo novo governo são conhecidas e consensuais, a começar pela retomada do crescimento econômico, decisiva para atenuar a angústia dos brasileiros desempregados e sua família. Prover o “pão nosso de cada dia”, atendendo à mensagem da oração que Jesus Cristo nos deixou, é uma responsabilidade da política dos homens. Porém, seu cumprimento não advém meramente da caridade e do distributivismo, cujo significado não se pode negar, mas também e, sobretudo, da inteligência, da competência, do compromisso com a população e do senso ético com os quais se governa um país.

Deus, em sua sabedoria e bondade infinitas, conferiu todos esses atributos ao ser humano, cujo livre-arbítrio determina a direção que se dá a tais dons. Esperamos, assim, que os governantes que seguirem à frente dos destinos do Brasil pensem prioritariamente no povo, no bem-estar socioeconômico e no desenvolvimento com justiça social.

Mais do que nunca, é oportuno enfatizar o papel do Estado, tão bem definido por São Tomás de Aquino (1225-1274): “Promover e assegurar o bem comum”.

*DOM ORANI TEMPESTA É CARDEAL-ARCEBISPO DO RIO DE JANEIRO

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