Greves de professores

As greves de professores no Brasil durante o ano de 2013 somaram 400 dias úteis e afetaram cerca de 1,5 milhão de alunos das redes estadual e municipal. O levantamento, feito pelo jornal Valor, é um dos sintomas mais evidentes da grave crise do magistério - problema que, se não for urgentemente enfrentado, comprometerá os esforços do País para o desejado salto de qualidade na educação.

O Estado de S.Paulo

02 Janeiro 2014 | 02h03

Foi um ano marcado por longas paralisações, com destaque para o Rio de Janeiro, que teve 56 dias de greve, e Mato Grosso, com 52. As principais reivindicações foram a melhoria dos salários e a adoção de planos de carreira. O governo federal admite que a remuneração é baixa, mas critica a duração das greves. "É preciso chegar a um pacto para minimizar greves prolongadas", disse o ministro da Educação, Aloizio Mercadante. "Não pode acontecer essa vitimização de professores e essas greves de dois, três meses, porque o que o estudante deixa de aprender nesse período não aprenderá nunca mais."

O ministro está correto, mas é curioso observar que nem sempre o partido ao qual Mercadante pertence, o PT, foi dessa opinião. Muito ao contrário: é de triste memória a greve de 43 dias realizada no ano 2000 pelos professores da rede estadual paulista, durante a qual o então governador Mario Covas chegou a ser agredido. Pois os caciques petistas na ocasião - Luiz Inácio Lula da Silva e José Dirceu - chegaram ao cúmulo de acusar os tucanos de "exploração político-eleitoral" do episódio. "O governo está tentando deslegitimar as manifestações sociais como fazia na ditadura, dizendo que a motivação é política", disse Dirceu na ocasião. Hoje do outro lado do balcão, os governadores petistas atacam os professores grevistas, acusando-os de atuar com um "viés mais partidário", como disse a secretária adjunta de Educação do governador gaúcho, Tarso Genro (PT), Maria Eulalia Nascimento. Para ela, vejam só, "o desafio é repensar a greve enquanto instrumento de luta".

A hipocrisia petista, contudo, não deve desviar o foco desse importante debate. A recorrência das desgastantes paralisações de professores ao longo da última década é o resultado de uma equação cujos elementos são bastante conhecidos: incompetência administrativa, descaso das autoridades e oportunismo político.

O caso do Plano Nacional de Educação (PNE) é exemplar. Depois de ser desfigurado no Senado, atendendo a interesses paroquiais da base governista e eleitoreiros da presidente Dilma Rousseff, o PNE, que deveria estabelecer metas e estratégias para melhorar a educação no Brasil, foi reduzido a um punhado de objetivos genéricos.

Enquanto isso, Mercadante recorre à fantasia para fazer o País acreditar que a situação do ensino não é, afinal, tão ruim. O último exame do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês) mostrou que o Brasil está em 58.º lugar entre 65 países. O vexame foi transformado em motivo para comemoração: como a média dos estudantes brasileiros em matemática passou de 356 pontos em 2003 para 391 pontos em 2012, Mercadante viu nisso a chance de dizer que o Brasil foi o país em que os estudantes mais evoluíram na década: "Quando olhamos o filme, somos o primeiro da sala".

Mas o "filme" a que se refere Mercadante é de terror: os estudantes do ensino médio seguem incapazes de entender um simples gráfico de barras e os professores continuam sem conseguir transmitir informações básicas a seus alunos.

Nada disso aconteceu por acaso. As greves de professores são o resultado mais evidente de um problema muito mais profundo: a desvalorização do magistério. Baixos salários e precariedade da rede pública se somam para empurrar os professores para fora da sala de aula. Nas escolas paulistas, por exemplo, a cada dia entre 2008 e 2012, oito docentes concursados desistiram de lecionar. "Ninguém quer ser professor hoje em dia", disse o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, Roberto Leão Franklin, ao justificar as greves. E não há motivo para acreditar que essa situação vá melhorar nem mesmo no longo prazo - comprometendo qualquer projeto de desenvolvimento do País.

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