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Há algo mais importante na vida que o futebol?

*Anthony Gooch

 Bill Shankly, gestor do Liverpool FC, disse certa vez: “... algumas pessoas acreditam que o futebol é uma questão de vida ou morte. Posso garantir que é muito, muito mais importante do que isso”. Poucos de nós faríamos uma afirmação desse tipo, mas a partir de amanhã bilhões de pessoas estarão compartilhando o mesmo sentimento diante dos seus times do coração na Copa do Mundo no Brasil, na terra do jogo bonito.

Futebol e esportes em geral são fundamentais na vida das pessoas sob diversas perspectivas: em campo ou na torcida, tirando proveito de uma atividade econômica relacionada ou admirando seus atletas. Neste momento é importante pensar no que acontecerá quando for dado o apito final, quando os jogos acabarem e as multidões voltarem para suas casas.

Na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), procuramos olhar “o dia seguinte”. Em 2010, antes dos Jogos Olímpicos de Londres em 2012, produzimos análises a respeito dos possíveis benefícios para a capital inglesa, considerando que grandes eventos podem dar uma contribuição positiva e duradoura para os anfitriões desde que tudo seja construído sobre pontos fortes que já existem – não há por que começar do zero. No caso londrino, concluía-se: “... será importante valorizar os habitantes do leste de Londres (...) e tornar a vida digna de ser vivida, de uma forma que não teria sido vivida de outra forma”.

Esta última parte – fazer a vida digna de ser vivida de uma forma que não teria sido vivida de outra forma – é o núcleo do argumento. (A Fundação Getúlio Vargas, nossa parceira brasileira, realizou análise com esse viés sobre o Impacto do Futebol para o Desenvolvimento Socioeconômico do BrasilCadernos FGV Projetos, junho/2013, n.º 22.)

Como os Jogos Olímpicos, realizar uma Copa do Mundo é caro. O Brasil deverá gastar cerca de R$ 26 bilhões em estádios de futebol, ampliações e modernizações de aeroportos e portos e mobilidade urbana, para essa competição. Mas isso representa apenas 0,7% do investimento total previsto no País no período 2010-2014 e a maior parte dos efeitos sobre a economia já foi sentida. Todavia, mesmo assim, é uma enorme quantia e milhões de brasileiros podem acreditar que seja muito para ser gasto com futebol, quando há a necessidade de melhores padrões de educação, saúde e transporte, entre outras prioridades.

O objetivo declarado da OCDE é ajudar a desenvolver “melhores políticas para uma vida melhor”, porém sabemos que, assim como os fãs de futebol que discutem quem é o maior time de todos os tempos – Brasil 1970? Real Madrid 1960? –, não há uma resposta definitiva para essas questões. Por isso é tão importante dar aos cidadãos, eleitores e contribuintes informação e voz para que eles próprios digam aos formuladores de políticas públicas o que de fato importa e pode fazer a diferença.

Por esse motivo, o resultado do trabalho conjunto com a Fundação Getúlio Vargas, está disponível a plataforma em português do Better Life Index (Índice para uma Vida Melhor), da OCDE (www.OCDEIndiceVidaMelhor.org). Trata-se de um instrumento online, ultrademocrático, que permite aos cidadãos criar seu índice de bem-estar e de qualidade de vida de acordo com o que é importante para cada um.

Pesos são atribuídos a 11 temas que contribuem para o bem-estar. Há temas que incluem aspectos materiais – renda, emprego e habitação – e outros relacionados à qualidade de vida – senso de comunidade, educação, meio ambiente, saúde, segurança, equilíbrio entre vida profissional e pessoal e, por último, mas não menos importante, satisfação com a vida ou sensação de felicidade.

Atualmente, o Índice para uma Vida Melhor captura dados e fornece uma descrição geral da qualidade de vida em 36 países, número que deve aumentar ao longo do tempo. Relatórios da própria OCDE disponíveis online e outras fontes de informações contribuem para capacitar os usuários e aprofundar as análises.

Desde o lançamento da sua primeira versão, em inglês, mais de 4 milhões de pessoas em 184 países já utilizaram o Better Life Index, o que o tornou referência internacional para medir o bem-estar. A versão em português será a sexta e abrirá possibilidade para que mais de 250 milhões de pessoas acessem o índice na sua língua materna, como ocorre atualmente para aqueles que falam inglês, espanhol, francês, alemão e russo.

Um novo recurso que estamos lançando agora revela o que mais de 65 mil pessoas em todo o mundo apontam como fatores mais importantes para a qualidade de vida nos últimos três anos. Essa base de dados (www.OECDIndiceVidaMelhor.org/respostas), que é visualizada num mapa interativo, permite a todas as pessoas identificar o que, de fato, importa. 

Para os cidadãos o índice fornece melhor informação sobre as políticas que impactam o seu bem-estar. E para os decisores e formuladores políticos ele sinaliza o que é mais importante para a população e o que deve ser feito para melhorar o seu desempenho e aumentar a satisfação e o envolvimento das pessoas.

Nós escolhemos a Copa do Mundo no Brasil como o momento ideal para lançar uma campanha mundial multilíngue online, “Is there #more2life than football?”, para sensibilizar sobre o que realmente importa para as pessoas em sua vida, o que constitui bem-estar e o que significa qualidade de vida no século 21.

Para Matias Deodato de Castro e Melo, personagem machadiano do livro Histórias sem Data, “a felicidade é um par de botas”. Seja qual for o seu time, esperamos que as botas (chuteiras) lhe tragam um pouco de felicidade durante as próximas semanas. Aconteça o que acontecer a essas equipes e a seus torcedores, se ganharem ou perderem, a OCDE sabe que, “com o Índice para uma Vida Melhor podemos transformar o jogo bonito numa vida bonita”. 

*DIRETOR DE COMUNICAÇÕES