Haddad ataca de novo

A essa altura os paulistanos já se devem ter convencido de que têm de estar preparados para as novidades que o prefeito Fernando Haddad inventa, quase sempre estranhas, para dizer o mínimo

O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2016 | 03h11

A essa altura os paulistanos já se devem ter convencido de que têm de estar preparados para as novidades que o prefeito Fernando Haddad inventa, quase sempre estranhas, para dizer o mínimo. De tal forma que a expressão “a última de Haddad” deve ser entendida, é claro, apenas como a mais recente, porque certamente outra logo virá. Será assim enquanto ele comandar a administração municipal, o que, para alívio da maioria da população da capital – a julgar pelo que dizem as pesquisas de opinião –, pode acabar nas eleições que se avizinham.

A última invenção do prefeito é propor a revisão da lei que limita a circulação de caminhões de carga na cidade a determinados horários, uma importante conquista do governo de seu antecessor, Gilberto Kassab, destinada a desafogar o trânsito. Provavelmente não por acaso, a decisão foi anunciada por ele depois de ter participado de reunião no Sindicato das Empresas de Transporte de Carga de São Paulo e Região (Setcesp), que se opôs desde o início a essa medida e nunca se cansou de exercer pressão para revogá-la, ou pelo menos amenizá-la de forma a adequá-la aos interesses de seus associados.

Segundo Haddad, a revisão está em estudo pelos técnicos da Secretaria Municipal de Transportes. “A primeira impressão”, acrescentou, “é que a medida foi exagerada e não contribuiu com a mobilidade na cidade. Então, é preciso rever. Foi criada de forma atabalhoada e prejudicou o abastecimento. Certamente vai haver uma revisão. Não sei se nos moldes anteriores.” Essas afirmações precisam ser analisadas com cuidado, para evitar que as imprecisões e inverdades de que elas estão cheias enganem os paulistanos.

Em primeiro lugar, se a mudança ainda está sendo estudada e se Haddad tem apenas uma “primeira impressão” de que ela não atingiu o objetivo de melhorar a mobilidade, é absolutamente irresponsável concluir que a lei precisa ser revista. Com base em quê? Em segundo lugar, o mesmo vale para a afirmação de que a medida foi adotada de forma atabalhoada e trouxe prejuízo para o abastecimento. No caso da forma atabalhoada, esse é um claro exemplo da tendência que têm alguns, como o prefeito, de atribuir ao outro o seu próprio defeito, pois é notório que a improvisação e a pressa são marcas do atual governo municipal. Quanto a danos ao abastecimento, este mais parece argumento do Setcesp. Tal afirmação deveria ser seguida de estudos – sérios, com credibilidade – que a comprovassem, o que não aconteceu.

Finalmente: a ideia – que não se sabe de onde o prefeito tirou – de que a medida não contribuiu para melhorar a mobilidade já foi desmentida por estudos técnicos. Eles indicaram que, conjugada com melhorias nas Marginais e a inauguração em 2010 do Trecho Sul do Rodoanel, a restrição aos caminhões permitiu reduzir em 32% a lentidão do trânsito na cidade no período das 7 às 20 horas, entre 2008 e 2011.

Restringir os horários em que os caminhões de carga podem circular, para evitar que atravanquem o trânsito, é medida adotada, há muito, nas grandes cidades dos países desenvolvidos. No caso de São Paulo, a única crítica válida é que se demorou a adotá-la. Mas antes tarde do que nunca, e será grave erro um recuo nesse terreno.

A proposta de Haddad não passa de mais uma das jogadas demagógicas, nas quais é useiro e vezeiro e que intensificou na ânsia de reverter o alto índice de rejeição a seu nome e conseguir a reeleição que parece cada vez mais distante. Ela é particularmente grave, porque combina o alto risco de piorar ainda mais o trânsito, por meio de um afrouxamento das restrições aos caminhões de carga, com a satisfação dos interesses das empresas transportadoras que, nesse caso, se chocam claramente com o interesse público. Por quê? É certamente o que muitos paulistanos estão perguntando.

Se o prefeito tivesse um mínimo de respeito pela coerência de suas propostas, poderia tentar explicar como concilia o afrouxamento da restrição aos caminhões com a melhoria da mobilidade urbana.

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