Hora de arrumação

O Fundo Monetário Internacional (FMI) concorda com o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo: o próximo governo terá de fazer uma arrumação nas contas públicas. O ministro admitiu essa necessidade numa entrevista ao Estado, publicada no domingo. Segundo ele, não há risco inflacionário e não será necessária, portanto, uma "inflexão". Sem alarmismo, os economistas do Fundo são, no entanto, bem menos complacentes. Recomendam frear com firmeza o crescimento do gasto governamental em vários países sul-americanos, incluído o Brasil. Nesses países, o aumento da despesa pública tem superado amplamente o crescimento econômico. No caso brasileiro, a recomendação é mais ampla. É preciso conter também as "operações quase-fiscais de bancos públicos" - mais precisamente, os estímulos concedidos por meio de operações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

, O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2010 | 00h00

A maior parte das economias sul-americanas vai bem e seu crescimento só será superado, neste ano, pelo desempenho das economias mais dinâmicas da Ásia, lideradas pela China. A avaliação positiva aparece no Panorama Econômico do Hemisfério Ocidental, divulgado nessa terça-feira em Bogotá, na Colômbia, Os sul-americanos estavam economicamente mais saudáveis que os países desenvolvidos, em 2008, e enfrentaram com sucesso a crise internacional. Além disso, os sul-americanos foram menos afetados que o México pela recessão nos Estados Unidos e ainda se beneficiaram dos bons preços das matérias-primas, mantidos graças à demanda dos emergentes da Ásia.

Mas a prosperidade sul-americana é acompanhada de riscos e o relatório do Fundo contém uma série de alertas. Nos países em melhores condições é hora de retirar os estímulos fiscais adotados durante a crise. Em alguns, a capacidade ociosa do setor produtivo já está muito reduzida e há o risco de superaquecimento. Essa observação vale para Brasil, Peru e Uruguai: com projeção de crescimento acima de 7% em 2010, essas economias operam "com plena capacidade ou perto disso" e com taxas de desemprego reduzidas. No Chile, a atividade foi retomada com vigor e os piores efeitos do terremoto foram superados.

O descompasso entre os emergentes e os países do mundo rico tem afetado as contas externas dos sul-americanos. Suas exportações foram favorecidas pelos preços dos produtos básicos, mas suas importações têm crescido mais rapidamente, impulsionadas pela forte demanda interna. Depois da crise, a maior parte deles passou do superávit ao déficit nas transações correntes do balanço de pagamentos. No Brasil, essa tendência já era observada antes do agravamento da crise em 2008. Os economistas do Fundo não demonstram grande preocupação, por enquanto, com a deterioração das contas externas, porque o ingresso de capitais tem sido mais que suficiente para cobrir o déficit. Mas o quadro poderá mudar, se a demanda não for contida. Nesse caso, aumentará o risco de superaquecimento, inflação e dificuldades nas contas externas, advertiu o diretor do Departamento do Hemisfério Ocidental, Nicolás Eyzaguirre. O grande fluxo de capitais para esses países tende a agravar os problemas e alguns, admitem os economistas do Fundo, podem ter de recorrer a medidas excepcionais de controle - caminho seguido pelo governo brasileiro neste momento.

A primeira linha de defesa deve ser a normalização da política fiscal, segundo os técnicos do FMI. "Normalização", nesse caso, significa principalmente a retirada dos estímulos. Mas os países em boas condições deveriam aproveitar a prosperidade para ajustar as contas um pouco mais e reduzir o endividamento.

O governo brasileiro tem ficado longe desse caminho, até agora. Ao contrário: continua expandindo seus gastos e, além disso, insiste em manter incentivos canalizados pelo BNDES. Esse tipo de política, segundo o relatório do Fundo, prejudica a eficácia da política monetária. Esses incentivos, de acordo com nota de rodapé, equivaleram em 2009 a 2,3% do PIB. Diplomaticamente, os autores do Panorama não qualificam a herança fiscal deixada para o próximo governo. Mas os dados são claros.

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