Ideia aloprada

É difícil de dizer que o prefeito Fernando Haddad passou dos limites, porque ele já deu mostras de ser capaz de ir sempre mais longe do que se pode imaginar. Mas a tentação, feita essa ressalva, é dizer que desta vez ele chegou lá, ao tratar do possível fechamento do Minhocão, tal a irresponsabilidade de sua amalucada proposta a respeito. Ao tomar conhecimento dela, todos os paulistanos dotados de um mínimo de bom senso, e independentemente do que possam pensar sobre o futuro dessa via elevada, devem estar se perguntando se Haddad delira ou se mergulhou de vez na demagogia mais rasteira.

O Estado de S. Paulo

18 Março 2016 | 03h00

Em palestra para alunos do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo – um auditório para o qual se supõe que ele teve o cuidado de pensar antes de falar e, por isso, não pode alegar como desculpa a pressa do improviso –, Haddad defendeu o fechamento do Minhocão de forma experimental, em bases absolutamente incompatíveis com a seriedade do governante da maior e mais rica cidade do País. A começar pelo prazo. Depois de falar em um ano, como mostra reportagem do Estado, ele começou a divagar: “Uma das coisas possíveis seria: vamos fechar por um mês, dois meses, três meses?”.

Como é possível tratar o fechamento de uma via de tal importância para o sistema de circulação já muito difícil da cidade com a ligeireza de quem participa de um joguinho infantil, ou de um leilão: um mês, dois meses, um ano, quem dá mais? Isso já bastaria para deixar qualquer um boquiaberto. Mas coisas ainda piores vieram em seguida, porque Haddad estava particularmente inspirado nesse dia infeliz.

Vale a pena citar, porque ninguém exprime melhor seus despautérios do que ele próprio: “Vamos experimentar? Se nós tivermos uma comunidade mais aberta ao experimentalismo, vamos poupar tempo, energia, desgaste pessoal e vamos chegar à solução mais viável”. Ou seja, ele propõe – num período que pode variar de um mês a um ano – que os paulistanos afetados direta ou indiretamente pela existência do Minhocão sejam usados como cobaias para testar os efeitos de seu fechamento. É preciso muita desfaçatez para fazer tal proposta.

Tem mais. Como ele parece ter perdido as estribeiras, ainda se meteu a dar tinturas acadêmicas a sua maluquice. Alega que veio da universidade e, nela, “você está experimentando o tempo todo. Para aprender tem que experimentar”. É preciso pensar que todo mundo é tonto para acreditar que a experiência que ele propõe tem alguma coisa a ver com a experiência das pesquisas universitárias.

“Obviamente, você não vai experimentar uma coisa sem base científica”, pontifica o “douto” prefeito. E qual a base para a sua aloprada experiência? Simplesmente não existe. Procurados pela reportagem, funcionários da Prefeitura informaram que não há estudos da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) sobre o possível fechamento do Minhocão pelos elásticos períodos aventados. A ideia, disseram, foi apenas uma hipótese levantada por Haddad.

Finalmente, Haddad encontrou um meio de apelar mais uma vez para a desculpa esfarrapada de que os meios de comunicação atrapalham seus projetos: “A cidade precisa se abrir um pouco para a mudança. Infelizmente, os meios de comunicação jogam (sic) um conservadorismo sempre. Mudança não é bem-vinda”.

Mudanças como essa do Minhocão não são bem-vindas mesmo. Se a proposta fosse séria, ele teria de baseá-la em estudos técnicos sobre o impacto do fechamento do elevado no sistema viário, no qual o Minhocão ocupa sabidamente posição importante. Sem isso, o que ele quer fazer é brincar irresponsavelmente com o sofrimento diário da população com o trânsito caótico da cidade.

Se a sua leviandade no trato dos problemas de São Paulo, misturada com demagogia – da qual esse é apenas o episódio mais recente –, não tem limites, o mesmo não ocorre com a paciência da população. É de esperar que ela demonstre isso nas próximas eleições.

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