Impasse à vista com a Europa

O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, projeto lançado há mais de dez anos, dificilmente será concluído até 2011, a julgar pela má vontade exibida pela indústria brasileira e pelo governo francês, empenhado em manter a proteção à agricultura de seu país. A indústria europeia tem interesse em ampliar seus mercados, especialmente em vista da paralisação da Rodada Doha. Os governos do Mercosul mostram interesse em fechar, finalmente, um acordo com um grande parceiro do mundo rico, o bloco europeu. Também são motivados pelo impasse da rodada mundial. Mas agora enfrentam dois obstáculos - a resistência da indústria local e o peso político da agricultura da França, respaldada por pressões do setor rural de outros países europeus.

, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2010 | 00h00

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra-se hoje menos favorável do que há alguns anos ao acordo com a União Europeia. Sua posição foi exposta em carta ao ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, e diretamente ao comissário europeu para o Comércio, Karel de Gucht, em São Paulo, na terça-feira.

Há motivos ponderáveis para cautela. O poder de competição da indústria brasileira continua prejudicado por fatores bem conhecidos - impostos muito altos, logística ineficiente, etc. O chamado custo Brasil pouco mudou nos últimos anos. Mas, além disso, outras condições pioraram. A crise estreitou os mercados internacionais, a demanda europeia permanece fraca, o euro se depreciou, o dólar está baratíssimo e o real supervalorizado é um obstáculo assustador para os empresários brasileiros. Como ainda há muita incerteza sobre a recuperação da maior parte da Europa, um acordo comercial pode envolver, a médio prazo, riscos importantes para a indústria brasileira ou, pelo menos, para vários setores.

Além do mais, os negociadores europeus terão dificuldade para oferecer melhores condições de comércio ao agronegócio do Mercosul. Poderão até concluir bons acordos para o Brasil e seus parceiros, mas seus compromissos serão submetidos à aprovação política dos 27 governos da União Europeia e do Parlamento Europeu. As perspectivas, neste momento, parecem muito ruins. "A Europa não é o vertedouro de produtos agrícolas da América do Sul", disse o ministro da Agricultura da França, Bruno le Maire. Ele prometeu combater o acordo com o Mercosul e ainda anunciou novos subsídios aos pecuaristas franceses, de 300 milhões em três anos.

Diante dessa disposição, fica difícil confiar na prometida reforma da política agrícola europeia. A discussão do assunto começou há vários anos, mas até agora as mudanças foram tímidas. O agronegócio europeu continua protegido por barreiras elevadas e por volumosos subsídios. Entre os principais beneficiários dessa política estão os produtores franceses. Prazos para a mudança da política agrícola foram discutidos enquanto ainda havia sérias apostas na conclusão da Rodada Doha. Na Europa e nos EUA deveria haver transformações importantes e as condições de competição seriam muito melhores para os produtores do Brasil, da Argentina e de outras economias emergentes. Hoje ninguém pode basear decisões comerciais nessas promessas.

Os industriais brasileiros, segundo a CNI, mantêm o interesse num acordo com a União Europeia, mas preferem esperar um momento mais adequado. Mas também a decisão de retardar essa negociação pode ter custos. Os Estados Unidos concluíram acordos com vários parceiros de regiões diferentes. Os europeus têm-se aproximado não só de outros latino-americanos, mas também de países da Ásia concorrentes do Brasil. Além da negociação com a União Europeia, o Mercosul só mantém conversações sobre acordos comerciais com parceiros muito menores.

Pelo menos parte da moral da história parece clara: os governos mais influentes do Mercosul, o brasileiro e o argentino, desperdiçaram as oportunidades de acordo com os Estados Unidos e com a União Europeia na fase de prosperidade. As condições, agora, são muito mais complicadas.

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