Independência sem efeito

Sem a maioria da população, sem a perspectiva de uma base econômica sólida e sem apoio internacional para seu projeto de independência, o governo catalão se vê em más condições para negociar uma saída para a crise que criou

O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2017 | 03h05

A sucessão de equívocos que marcaram desde o início a tentativa de separação da província da Catalunha só podia mesmo levar à estranha fórmula apresentada pelo governador Carles Puigdemont ao Parlamento local: uma declaração de independência, com base no resultado do plebiscito de 1.º de outubro, logo seguida de um pedido de suspensão de seus efeitos para dar tempo a uma negociação com o governo espanhol. Uma proposta que desagradou a todos: tanto aos catalães que são favoráveis como aos que são contra a separação, assim como ao governo central, pois a vice-primeira-ministra, Soraya Sáenz de Santamaría, anunciou em seguida o que já era esperado, isto é, que Madri não reconhecerá a independência.

Ao proclamar que, baseado no resultado do plebiscito, assumia “o mandato do povo de que a Catalunha se converta em um Estado independente em forma de república”, Puigdemont fechou os olhos a um fato incontestável. Além de ser ilegal, de acordo com decisão do Tribunal Constitucional da Espanha, o plebiscito deixou claro, para qualquer um que examine serenamente seu resultado, que a independência foi apoiada por uma minoria. Votaram apenas 42% dos eleitores (2,26 milhões de 5,34 milhões). Portanto, os 90% que apoiaram a independência, não passam de 37,8% do eleitorado.

E não se pode alegar que foi a repressão do governo central a responsável por tamanha abstenção. O número de votantes, em consulta realizada em 2014, ficou pouco acima (2,3 milhões). Sem contar que há fundadas suspeitas de que muitos eleitores votaram mais de uma vez no plebiscito. A gigantesca manifestação, realizada em Barcelona por centenas de milhares de catalães contrários à independência, uma semana após o plebiscito, não deixou dúvida de que a maioria da população da província está longe de ter dado a Puigdemont o mandato popular a que ele se referiu.

Essa é uma das razões pelas quais ele se viu forçado ao papel constrangedor de proclamar uma falsa independência, para logo em seguida torná-la sem efeito. Dizer que isso foi “um gesto de responsabilidade e generosidade” não passa de tentativa de dourar a pílula por alguém que sabe que o chão lhe escapa aos pés. Outros motivos ponderáveis também explicam a busca de Puigdemont e seus partidários de uma saída para a enrascada em que sua imprudência, sua pressa e seu irrealismo os meteram.

Logo depois do plebiscito, donos de importantes negócios – de bancos a empresas as mais diversas – começaram a transferir suas sedes da Catalunha para outras províncias, num claro sinal de desaprovação à independência. Um duro golpe para Puigdemont, que veio provar que a advertência do escritor Vargas Llosa – de que a Catalunha pode se tornar um país do Terceiro Mundo, caso se separe da Espanha – não foi uma tirada retórica, mas produto de uma avaliação responsável da situação.

A reação internacional, de clara desaprovação à tentativa de independência, foi imediata. Os governos dos Estados Unidos, da França, da Itália e do México anunciaram que não reconhecerão um Estado catalão. O mesmo fez a União Europeia (UE), receosa de que uma secessão catalã incentive movimentos separatistas na própria Espanha (País Basco) e em outros países do continente. E isso no momento em que ela já está às voltas com a saída do Reino Unido.

Sem a maioria da população, sem a perspectiva de uma base econômica sólida e sem apoio internacional para seu projeto de independência, o governo catalão se vê em más condições para negociar uma saída para a crise que criou. Não é certo nem mesmo que o governo do primeiro-ministro Mariano Rajoy, consciente da posição de fraqueza dos independentistas, esteja disposto a negociar. Pode escolher a solução legal da dissolução do governo catalão e a convocação de eleições regionais.

E, se negociar, pode partir, como já indicou, da premissa de que a independência da Catalunha é inaceitável. Logo se saberá quais serão os próximos passos.

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