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Inflação ainda longe da meta

O Estado de S.Paulo

20 Junho 2014 | 02h 05

Para os otimistas, a notícia pode valer uma comemoração, mas é muito cedo para festejar uma vitória, mesmo parcial, da política anti-inflacionária. A prévia da inflação oficial, o IPCA-15, ficou em 0,47% neste mês. Este é o dado positivo. A taxa recuou mais uma vez, como se previa. Em maio, havia batido em 0,58%. Poderá ainda recuar até agosto, de acordo com as projeções do mercado. Mas, se houver o repique previsto por analistas do setor privado, o resultado final de 2014 estará na vizinhança de 6%, como tem ocorrido nos últimos quatro anos. Mesmo os otimistas notaram um detalhe desfavorável no cenário divulgado nessa quarta-feira. O acumulado em 12 meses, 6,41%, continuou muito próximo do limite de tolerância, 6,5%, impropriamente chamado "teto da meta". Na hipótese mais favorável, a taxa anual continuará elevada por algum tempo e depois cairá.

Para os menos engajados no pensamento positivo, o quadro geral ainda é preocupante. Em um ano, uma alta mensal de 0,47% resulta em 5,79%, um número muito distante da meta fixada para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), 4,5%. Mesmo com a expectativa de números menores nos próximos dois meses, nem o governo promete levar a inflação à meta neste ano ou no próximo. Talvez isso ocorra em 2016, mas nem isso é certo.

Uma análise dos componentes do último IPCA evidencia vários motivos de preocupação. A média dos núcleos subiu de 0,53% em maio para 0,6% em junho. Há vários cálculos de núcleos, todos com a exclusão de alguns componentes. Podem-se eliminar, por exemplo, os preços dos alimentos ou os itens com variações extremas para cima e para baixo. A ideia é, por assim dizer, limpar o índice para identificar tendências. Neste caso, o resultado é ruim.

Outros detalhes preocupantes: os preços livres subiram 0,52%, mais do que em maio (0,46%), e os preços dos serviços, com alta de 0,97%, avançaram muito mais que no mês anterior (0,24%). Os dois dados evidenciam, mais uma vez, forte pressão da demanda. Além do mais, o índice de difusão, embora tenha recuado ligeiramente, de 67,4% para 66,6%, continuou muito alto. Esse índice corresponde à porcentagem de itens com alta de preços. Dois terços, portanto, continuaram subindo. Também isso explica a inflação ainda elevada, apesar do aumento bem menor do custo da alimentação (0,21%, depois de uma alta de 0,88% no IPCA-15 de maio).

A elevação menor dos preços dos alimentos pode ser um fenômeno passageiro, com duração de alguns meses. Mas o ponto mais importante é outro. Com esses números, mais uma vez se desmente a tese oficial de uma inflação alimentada principalmente por um choque de preços dos alimentos (ou, de modo geral, por um choque de preços de matérias-primas). Esses preços têm caído nas transações por atacado e parte dessa mudança já chegou ao varejo, mas outros itens continuam sustentando um forte aumento geral de preços.

Não está claro, ainda, se os nove aumentos de juros promovidos pelo Banco Central (BC) desde abril de 2013 produziram algum efeito anti-inflacionário. Se produziram, foi por enquanto bem limitado. Mais efeitos devem surgir, segundo nota recente do Comitê de Política Monetária (Copom), responsável pelas decisões sobre os juros básicos.

Mas o próprio Copom continua chamando a atenção, em seus comunicados, para a persistência de importantes fatores inflacionários, como o aperto no mercado de mão de obra, com aumentos salariais ainda acima dos ganhos de produtividade, e a expansão do crédito (moderada, de acordo com a avaliação oficial).

O Copom tem reafirmado a expectativa de resultados fiscais melhores e mais compatíveis com a política de combate à inflação. Mas nada confirmou essa expectativa, até agora, e o desajuste das contas públicas federais continua alimentando uma demanda claramente excessiva. Por enquanto, o foco principal da inflação continua onde tem estado por muito tempo: na política baseada na gastança e com objetivos eleitorais e populistas.

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