Inflação baixa facilita ajuste

O governo tem condições muito favoráveis para avançar na arrumação de suas contas, se nenhum grande entrave for criado pelo jogo político

O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2017 | 03h00

Com inflação baixa, contas externas em ordem, cenário internacional ainda benigno e economia em lenta, mas firme recuperação, o governo tem condições muito favoráveis para avançar na arrumação de suas contas, se nenhum grande entrave for criado pelo jogo político. É difícil ser otimista quanto a esse último item, quando nem a chamada base governista se abstém de pilhar o Tesouro e de atrapalhar os esforços de ajuste. Mas a equipe econômica tem a seu favor pelo menos um cenário com indicadores propícios. As pressões inflacionárias têm sido moderadas, assim poderão continuar no próximo ano, e esse é um detalhe especialmente importante. Subiu apenas 0,16% em setembro o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A alta acumulada no ano, de 1,78%, foi a menor, para esses nove meses, desde 1998, quando ficou em 1,42%. O resultado em 12 meses passou de 2,46% em agosto para 2,54% no mês passado, mas, apesar dessa ligeira alta, há vários motivos para comemorar esses números.

Inflação mais baixa, e em níveis desconhecidos por muitos anos, significa, em primeiro lugar, menor desgaste do poder de compra das famílias e maior potencial de consumo. Esse efeito já ocorre, contribuindo para a movimentação da indústria, para a arrecadação de impostos e até para o aumento das importações. Em segundo lugar, a inflação em queda permitiu sucessivos cortes da taxa básica de juros – até agora de 14,25% para 8,25% ao ano. Novos cortes, mais moderados que os últimos, poderão ocorrer. Projeções do mercado apontam juros de 7% no fim deste ano e ao longo do próximo e de 8% no fim de 2019, quando a inflação deverá ter voltado a 4,25%, coincidindo com a meta.

A redução dos juros básicos tem produzido efeitos nas operações de mercado, barateando os financiamentos concedidos a consumidores e a empresas. O custo desses empréstimos, como é tradicional no Brasil, continua bem mais alto que a taxa básica, mas, ainda assim, a mudança das condições tem gerado efeitos positivos no consumo, na produção e também na saúde financeira das empresas. A redução das solicitações de recuperação judicial é parcialmente explicável pela melhora do crédito, segundo especialistas.

Menos destacado na maior parte do noticiário, o alívio no orçamento das famílias de menor renda é um dado especialmente positivo. Além do IPCA, válido para famílias com ganho mensal de 1 a 40 salários mínimos, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) calcula também o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), baseado nos orçamentos de famílias com renda de 1 a 5 mínimos.

O INPC diminuiu 0,02% em setembro, depois de ter caído 0,03% no mês anterior. A alta acumulada em 12 meses ficou em 1,63%, bem abaixo, portanto, da variação do IPCA. A trajetória favorável dos dois indicadores tem sido puxada principalmente pelo comportamento muito benigno do custo da alimentação. Mas os preços dos demais itens de consumo também têm evoluído de modo mais confortável para os consumidores.

Também a Fundação Getúlio Vargas apontou a melhora das condições para as famílias de baixa renda, ao divulgar nesta semana seu Índice de Preços ao Consumidor (IPC) – Classe 1. Esse indicador, calculado para famílias com ganho mensal entre 1 e 2,5 salários mínimos, diminuiu 0,25% em setembro e subiu 1,89% em 12 meses. Nesse período, o índice mais amplo (IPC-BR) avançou 3,17%.

Inflação contida, juros internos mais favoráveis, economia global em recuperação e finanças internacionais ainda confortáveis podem facilitar um ajuste orçamentário menos penoso no País, se Brasília souber aproveitar a oportunidade. Se o governo Temer conseguir avançar, deixará à próxima administração um quadro fiscal bem mais manejável – se o sucessor na Presidência entender a importância da tarefa. Mas será importante cuidar logo da reforma da Previdência, para ficar no mínimo indispensável. O maior desafio será mobilizar a base parlamentar para cuidar dos interesses do País.

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