Inflação menor, mas desafiante

Há boas notícias no front da inflação, suficientes, segundo os mais entusiasmados, para justificar um novo corte dos juros básicos, reduzidos no mês passado de 14,25% para 14% ao ano

O Estado de S.Paulo

10 Novembro 2016 | 04h31

Há boas notícias no front da inflação, suficientes, segundo os mais entusiasmados, para justificar um novo corte dos juros básicos, reduzidos no mês passado de 14,25% para 14% ao ano. Mas falta percorrer um longo e inseguro caminho até a meta de 4,5% fixada para 2017. Se esse ponto for alcançado, ainda será necessário um esforço para atingir os padrões internacionais com altas de preços dificilmente maiores que 3% ao ano. Por enquanto, o mais seguro é ficar na comemoração de duas novidades positivas. Com alta de 0,26%, a variação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em outubro foi a menor para o mês desde 2000. A elevação de 7,87% em 12 meses foi a menos ampla desde fevereiro de 2015.

Uma redução de juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), prevista para o fim do mês, dependerá também do andamento do programa de ajuste das contas públicas. A proposta de um teto para o gasto federal foi aprovada na Câmara e tramita no Senado. Se o projeto avançar sem grandes problemas nas próximas semanas, os membros do comitê, formado por diretores do Banco Central (BC), terão mais um argumento para continuar afrouxando as condições de crédito.

Mas também será preciso, especialmente depois da vitória de Donald Trump na eleição americana, acompanhar o movimento de capitais, a evolução dos juros nos principais mercados e a variação do câmbio, um fator nada desprezível da formação de preços.

Novos cortes de juros atenderiam duplamente aos interesses do governo, embora o presidente e os ministros da área econômica geralmente evitem comentar a política monetária. Juros mais baixos – nos limites aceitáveis pelos financiadores do Tesouro – facilitariam a rolagem dos títulos federais e o controle da dívida pública. Além disso, poderiam favorecer a reativação dos negócios e, como resultado, a recuperação da receita tributária.

Mas é preciso levar em conta outros fatores antes de cada mexida nas condições do crédito. Os brasileiros não deveriam esquecer os efeitos desastrosos do voluntarismo na política monetária e na contenção de preços administrados, para citar dois exemplos conhecidos.

Antes da próxima decisão sobre juros será conveniente considerar também outros detalhes do último relatório sobre o IPCA. A evolução favorável da taxa mensal de inflação é, em boa parte, explicável por mais uma redução – de 0,05% – dos preços de alimentos e bebidas. Em setembro já tinha havido uma queda de 0,29%.

Mas 5 dos 9 grandes componentes do índice variaram no sentido oposto, pressionando o resultado final para cima. O índice de difusão (parcela de itens com aumento) passou de 57% em setembro para 58,9% em outubro, segundo a Votorantim Corretora. Além disso, os vários núcleos, calculados com exclusão de alimentos ou com outros ajustes, subiram mais intensamente em outubro do que no mês anterior.

Tudo isso aponta a permanência de pressões de alta em vários segmentos do mercado de bens e serviços. Em outras palavras, é um erro considerável imaginar a inflação como um fenômeno confinado no setor de alimentos e bebidas. Não se deve, é sempre oportuno repetir, colar o rótulo de vilão da inflação numa categoria de produtos, até porque o vilão pode mudar a cada mês.

A discussão só tem sentido quando se levam em conta fatores de outra natureza. Exemplos frequentes, embora nem sempre observados ao mesmo tempo, são o excesso de gastos públicos, a expansão do crédito, a indexação e os entraves à oferta. Em outubro, os preços dos serviços aumentaram 0,47%, bem mais que no mês anterior (0,33%). Essa evolução está sendo acompanhada com atenção pelo Copom.

Enfim, também vale observar outros dados, como os da Fundação Getúlio Vargas. A alta dos preços de matérias-primas brutas passou de 0,40% em setembro para 0,92% em outubro, enquanto o ritmo dos preços ao consumidor foi de 0,07% para 0,34%. Os sinais de alerta podem ter ficado mais discretos, mas continuam bastante sensíveis.

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