Iniciação científica

Apesar das agências de fomento à pesquisa terem aumentado significativamente os investimentos em iniciação científica, nos últimos anos, ainda são poucos os estudos sobre o perfil social e econômico dos jovens beneficiados por esses programas. Realizado pelo Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior de São Paulo, que entrevistou 2,6 mil universitários, durante o 11.º Congresso Nacional de Iniciação Científica, o último levantamento foi divulgado em dezembro.

O Estado de S.Paulo

05 Janeiro 2012 | 03h07

Segundo o estudo, a maioria dos participantes de programas de iniciação científica pertence à classe média baixa, estudou em colégios públicos e metade vem de famílias cujos pais só cursaram o ensino fundamental. Assim, os candidatos a programas de iniciação científica tendem a ver as bolsas de estudo como alternativa para pagar os estudos, evitando dar despesas à família. O valor das bolsas varia conforme a agência de fomento que as financia. As do CNPq são de R$ 360 por mês.

Mas, ao aprender a revisar a literatura científica, a buscar artigos em revistas especializadas e a cruzar informações teóricas, sob a orientação de um professor, os jovens pesquisadores descobrem a importância da iniciação científica para a elaboração de projetos de mestrado e doutorado ou mesmo para a obtenção dos estágios. A iniciação científica é decisiva, por exemplo, para o formando em medicina que disputa um lugar na residência de um hospital universitário.

Entre 2010 e 2011, o CNPq distribuiu 23.958 bolsas de iniciação científica. Esse número foi mantido para 2012, havendo previsão de que seja aumentado em 2013. A maioria das bolsas é concedida a instituições públicas de ensino superior, cujos alunos têm poder aquisitivo maior do que o dos estudantes das universidades particulares. Por isso, os especialistas recomendam ao CNPq que estenda seu programa de iniciação científica para a rede privada. Por seu lado, o órgão afirma que já oferece mais de 800 bolsas para os estudantes que ingressaram no ensino superior através de ações afirmativas como a política de cotas.

O objetivo dos programas de iniciação científica é preparar os estudantes de graduação para ingressar na pós-graduação, atraindo os mais talentosos para a pesquisa acadêmica e para o ensino universitário e formando os quadros técnicos necessários para o desenvolvimento tecnológico. A iniciação científica se consolidou no País entre 1979 e 1988. Antes desse período, só os pesquisadores tinham direito a bolsas.

Em 1979, o economista Cláudio Moura Castro, então à frente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), lançou o Programa de Educação Tutorial, concebido como um "enclave de qualidade" para impedir que os universitários mais talentosos fossem engolidos pela massificação do ensino superior. "A França reservou as grandes Écoles para os melhores alunos. Os EUA reservaram a Ivy League. E nós deitávamos água em todos os feijões de todas as caçarolas", dizia Castro. No início, foram criados cinco grupos PET em economia, direito e engenharia florestal. Três décadas depois, são mais de 400 grupos, com um total de 4.274 bolsistas e 400 tutores. Em 1988, o CNPq criou o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica, que hoje é considerado um marco, tendo estimulado as agências estaduais de fomento à pesquisa a adotar programas semelhantes.

Entre 1979 e 1988, a iniciação científica foi pensada como uma "matriz de lideranças intelectuais". Mas, por causa da demagogia política reinante em muitas universidades, a formação de grupos discentes de elite passou a ser tratada como se fosse uma afronta ao princípio da justiça social. Por isso, nas últimas décadas a expansão dos programas de iniciação científica se deu de forma desigual - enquanto alguns atingiram padrões de excelência, outros apresentaram problemas de gestão e conflitos ideológicos. Felizmente isso está mudando - e o levantamento sobre o perfil dos bolsistas de iniciação científica é prova disso.

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