Instituto do Coração, que caminho tomar?

O Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP é um órgão de saúde único no País, pois agrega equipes multiprofissionais de elevado nível acadêmico em atividades assistenciais, didáticas e científicas num mesmo espaço físico, em elevado grau de sintonia. Uma instituição com essas vocações exige recursos humanos e materiais dimensionados com suas responsabilidades sociais. Uma pergunta deve ser feita: esse equilíbrio tem ocorrido?

Charles Mady, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2011 | 00h00

O Incor nasceu de um projeto dos professores Euryclides de Jesus Zerbini e Luiz Décourt, de quem com orgulho fui aluno e assistente, realizado em conjunto com docentes que os rodeavam. Na ocasião, em razão do gigantismo do projeto, foi chamado por alguns de elefante branco e, de forma pejorativa, de "instituto do pericárdio", pois só teríamos condições de tratar essa membrana que reveste o coração. Para levantar fundos que nos dessem a possibilidade de tratar o coração como um todo se criou, de forma original, a fundação que hoje leva o nome de um dos mestres, com a finalidade de fazer esse assim chamado elefante branco andar.

O sucesso surgiu rapidamente, com índices qualitativos e quantitativos de atendimento muito elevados, além de se tornar um centro de excelência em pesquisa reconhecido internacionalmente. Isso foi possível com a injeção de verba que a fundação gerou, tanto complementando salários de recursos humanos para mantê-los trabalhando em tempo integral, como reaparelhando a infraestrutura do hospital. Passamos a formar, em graduação e pós-graduação, profissionais que fazem parte da elite intelectual deste e de outros países. Produzimos trabalhos científicos que ocupam espaços nobres em congressos e revistas do mundo todo. Portanto, servimos à sociedade e dela recebemos o devido reconhecimento pelos serviços prestados.

Porém em determinado momento problemas muito sérios abalaram a confiança da sociedade. Houve erros, alguns muito graves, e os reconhecemos como consequentes de nossas gestões, muitas vezes com visões pouco claras e anestesiadas pelo sucesso de momento. Entramos num período de enormes dificuldades, que se não tivessem sido administrados devidamente teriam levado o Incor ao sucateamento.

Nossos problemas ainda são grandes, basta observar o que a imprensa tem divulgado. Sabemos, e não temos por que esconder, que nosso arquivo, além de outros setores de nossa burocracia, está precisando de reformas urgentes. Sabemos que algumas de nossas instalações precisam ser redesenhadas para comportar o fluxo cada vez maior de pacientes. Sabemos que atendemos pacientes particulares e de convênios privados e não devemos ser hipócritas nesse assunto, pois é situação presente desde a instalação de nossa fundação. Essa foi e é a forma que tivemos e temos de arrecadar fundos para manter essa instituição, que é patrimônio da Nação, em pé.

Concordo com as críticas de certos órgãos da imprensa, que filosoficamente defendem, como nós defendemos, a tese de que pacientes previdenciários devem ter o melhor possível. Mas o que fazer quando o poder público tem grande dificuldade nesse setor e, apesar dos esforços de recolocar o sistema em bom nível, sabemos que isso só ocorrerá de médio a longo prazo? Então, como manter essa estrutura funcionando, sem prejuízo dos mais necessitados?

Para adquirir uma visão realista do problema basta visitar certos serviços médicos públicos e se terá noção da dificuldade enfrentada por eles. Estivemos em vários, alguns com leitos ociosos, outros transformados em verdadeiros aglomerados de seres humanos, na mais absoluta indignidade, comprovando que os poderes públicos têm um problema de enorme dimensão a ser resolvido para dar à sociedade um atendimento minimamente decente.

Transportando-nos para o complexo HC, o problema que nossos institutos irmãos enfrentam é o mesmo, com críticas exacerbadas da imprensa às determinações da Fundação Faculdade de Medicina, por empregar métodos semelhantes aos nossos. Temos consciência de que fundações podem gerar corrupção, como qualquer órgão que une o público ao privado, podendo tornar-se locais que abram as portas a interesses corporativos que desvirtuam suas reais finalidades. Para combater esse mal devemos nomear conselhos curadores heterogêneos, formados por nomes insuspeitos, independentes, sem traços de fisiologismo ou nepotismo, não relacionados à entidade em questão ou mesmo a outras que tenham interesses semelhantes. É onde o poder público se deve impor.

Sendo redundante, não podemos permitir que esse centro de excelência se sucateie, causando enorme prejuízo à nossa sociedade. Não nos conformamos com isso. Portanto, o que é "menos pior", atender 20% de pacientes privados, que mantêm parte dos pacientes previdenciários, ou atender apenas parte desses 80%, com má qualidade? Essa situação pode ofender muito daquilo em que filosoficamente acreditamos. Estar perante um paciente necessitado e não ter condições de dar o que ele precisa fere o âmago do nosso juramento e, consequentemente, da nossa alma.

Somos membros de um hospital público de excelência. Devemos aceitar a decadência, por fatores ideológicos? Somos absolutamente a favor de que saúde seja um dever do Estado e um bem a que todos deveriam ter acesso. Mas o que fazer? Se estamos cometendo um erro, apontem-nos uma solução em curto espaço de tempo que impeça o sucateamento dessa instituição, que continua sendo um orgulho nacional.

Enquanto não tivermos recursos públicos para manter a excelência e preencher as necessidades sociais, temos de buscar meios para sobreviver. A função desta gestão é recolocar esse patrimônio assistencial, didático, científico, enfim, acadêmico, que é o Incor, de volta nos corações de nossa sociedade.

PROFESSOR ASSOCIADO DA FACULDADE DE MEDICINA DA USP, É MEMBRO DO CONSELHO DIRETOR DO INCOR

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